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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

'Vivamos oTempo do Advento como tempo de reflexão e oração'


Frederico Westphalen - Dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo da Diocese de Frederico Westphalen, no Estado do Rio Grande do Sul, escreveu um artigo com o título: "Advento: estar preparado para a vinda do Senhor". Em sua reflexão, o prelado afirma que chegou a hora de nos levantarmos do sono e vigiarmos para estarmos preparados com a resposta da Fé no encontro com o Senhor que vem.

De acordo com o Bispo, o Advento é o acolhimento de uma vinda de Deus à terra há 2 mil anos, uma vinda às nossas vidas, no nosso dia a dia, e uma vinda no fim dos tempos: tanto o tempo da última vinda de Cristo no fim do mundo para o Juízo final, como o tempo decisivo da nossa morte.

Ele ainda ressalta que com o tempo litúrgico que agora começa, aviva-se o desejo de que o Senhor venha, e o desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração humano, porque fomos criados por Deus e para Deus.

Dom Antônio então questiona: O desejo insaciável de felicidade que todos nós sentimos, que é isso senão o desejo de Deus? Para o prelado, a felicidade consiste na posse do bem, mas os bens de que gozamos nesta vida nunca satisfazem plenamente o coração humano.

"Todos aspiramos a um bem supremo, sem qualquer limitação. Ora, esse bem é Deus, de quem procedem todos os bens. Se não existisse esse bem supremo, capaz de satisfazer as aspirações humanas mais profundas, o ser humano seria um ser sem sentido, um absurdo e uma contradição, uma paixão inútil, um ser votado ao fracasso", completa.

Segundo Dom Antônio, é assim que todo o ser humano é um ser naturalmente religioso, pois aspira à união com Deus. Ele explica que na grande diversidade das culturas, através de todos os tempos e lugares, é comum a todas elas a reflexão sobre Deus e sobre os temas centrais da existência humana: a vida e a morte, o bem e o mal, o destino último e o sentido de todas as coisas.
Como dizia o Beato João Paulo II na ONU, em em 5 de outubro de 1995: "O coração de cada cultura está constituído pela sua aproximação ao maior dos mistérios: o mistério de Deus".
O bispo afirma que foi assim que, ao longo dos séculos, surgiram as diversas religiões, numa busca de Deus às apalpadelas, com acertos e desacertos. "Sempre, mas sobretudo nas condições históricas em que vivemos, experimentam-se muitas dificuldades para chegar ao conhecimento de Deus apenas com as luzes da razão, dado que: o que diz respeito a Deus ultrapassa o que se vê e o que se sente. Crer em Deus exige que nos demos a Ele e que renunciemos a nós próprios."
Para o prelado, os maus desejos nascidos do pecado original puxam-nos para baixo. Nesse sentido, ele cita uma frase de Pio XII: "Os homens facilmente se convencem da falsidade ou, pelo menos, da incerteza daquelas coisas que não desejariam que fossem verdadeiras".
Dom Antônio acredita que é assim que a ligação do homem com Deus pode chegar a ser esquecida, desconhecida, e até rejeitada por diversas razões, como o mau exemplo daqueles que creem e sobretudo a difusão de ideologias contrárias à religião, que umas vezes levam ao ateísmo, outras vezes ao agnosticismo, ao laicismo, ou ao indiferentismo religioso.
Por fim, o Bispo salienta que o argumento, que mais vezes se apresenta para justificar estas atitudes de pôr de parte a Deus, é a revolta contra o mal e a injustiça que há no mundo. Mas, conforme Dom Antônio, se refletirmos, compreendemos que a existência do mal, na verdade, exige que haja alguém superior que venha a fazer justiça.
Como diz o papa Bento XVI na sua 2ª encíclica, Spe Salvi: "O protesto contra Deus em nome da justiça não basta. Um mundo sem Deus é um mundo sem esperança. (...) Se diante do sofrimento deste mundo o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz e nem é capaz de fazer, é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira.
Não é por acaso que dessa premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade intrínseca desta pretensão". O Bispo conclui fazendo um convite: vivamos este Tempo do Advento como um tempo de reflexão e de oração.
SIR

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Alegria do evangelho


O Papa Francisco reaviva a recuperação de sentidos genuínos na vivência do Evangelho
O Papa Francisco define ainda mais nitidamente o horizonte norteador da Igreja Católica neste tempo com a sua recém-publicada Exortação Apostólica, intitulada “A alegria do Evangelho”.  Obviamente, trata-se de uma exortação que nasce da “escuta”, na dinâmica da vida da Igreja e do que é próprio da graça de Deus. O Papa Francisco, com frescor próprio do coração de pastor enraizado no chão latino-americano, reaviva, com singularidades, a recuperação de sentidos genuínos na vivência do Evangelho. O conhecimento da Exortação do Papa é determinante na compreensão e no tratamento do mais importante desafio da Igreja Católica na contemporaneidade: a insubstituível tarefa de anunciar o Evangelho no mundo atual.

Ao falar sobre alegria, um capítulo determinante da vida e um interesse comum a todos os corações, é imprescindível compreender que o Evangelho de Jesus Cristo não é um simples conjunto conceitual alternativo para aprendizagem, ou simples referência quando necessário. A alegria do Evangelho é duradoura.  Enche o coração dos que, no cotidiano, vivenciam a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo. Trata-se de uma alegria que não é como muitas outras, que seduzem, mas são passageiras e não têm força para resgatar o vazio interior, o isolamento e a tristeza. O Papa Francisco adverte que o grande risco do mundo contemporâneo, com a oferta múltipla e opressora de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração acomodado e avarento, da busca doentia de prazeres superficiais.

Não é possível encontrar uma alegria verdadeira e duradoura quando a vida interior se fecha nos seus próprios interesses. Isto impede a escuta de Deus e faz morrer o entusiasmo de se fazer o bem. Um risco que, sublinha o Papa Francisco, pode atingir também aos que creem e praticam a fé. Um cenário que pode ser constatado quando são encontradas pessoas descontentes, ressentidas, amargas e incapacitadas para cultivar sonhos e projetos, necessários para conduzir a vida na direção da sua estatura própria de dom de Deus. A alegria, necessidade natural do coração humano, expressão de vida vivida com dignidade, vem com o anúncio, conhecimento, experiência e testemunho do Evangelho de Jesus Cristo.

A Igreja, que tem a missão de promover a experiência dessa alegria duradoura tem que estar em movimento, isto é, sempre a caminho. Cada membro, tomando a iniciativa de sair e ir ao encontro, deve renunciar às comodidades e acolher o desafio da mudança, da renovação, numa atitude permanente de conversão. É preciso ter coragem de mudar, de ousar novas respostas, em todos os campos da sociedade, dinâmicas e projetos. No caminho contrário, corre-se o risco de se tornar um instrumento inócuo no serviço e no anúncio da fonte inesgotável dessa alegria.

Por isso, diz o Papa Francisco, a Igreja está desafiada por uma exigência de renovação improrrogável. Para se adequar a esta necessidade, é preciso reconhecer os muitos desafios postos pelo mundo contemporâneo. A consideração das diferentes culturas urbanas, com um conhecimento mais aprofundado de suas dinâmicas, interesses, linguagens e configurações, tem a propriedade de mostrar o caminho novo que fará a renovação da Igreja. O Papa Francisco sublinha que na atual cultura dominante, o primeiro lugar está ocupado por aquilo que é exterior, imediato, visível, veloz, superficial e provisório. O real dá lugar à aparência. Constata-se uma deterioração de valores culturais, com a assimilação de tendências eticamente fracas. Esse processo de renovação e  trabalhosa tarefa de ajudar o mundo a encontrar no Evangelho a fonte perene de alegria duradoura supõe, sem negociação, a coragem e a perseverança no dizer “não” a uma economia da exclusão, “não” à nova idolatria do dinheiro, que dá ao mercado a força de governar e não  a de servir, gerando perversidades inadmissíveis. “Não” a todo tipo de iniquidade que gera violência, “não” ao egoísmo mesquinho e ao pessimismo estéril.

É hora de compreender e testemunhar a dimensão social da fé, como força e instrumento de uma nova “escuta” prioritária dos pobres, trabalhando para respeitar o povo, de muitos rostos e necessidades. Convida-nos o Papa Francisco a buscar, corajosamente, novas configurações organizacionais, institucionais e pessoais, apoiados na certeza daquilo que, luminosamente, está na alegria do Evangelho.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (Itália) e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma (Itália). Membro da Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé. Dom Walmor presidiu a Comissão para Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante os exercícios de 2003 a 2007 e de 2007 a 2011. Também exerceu a presidência do Regional Leste II da CNBB - Minas Gerais e Espírito Santo. É o Ordinário para fiéis do Rito Oriental residentes no Brasil e desprovidos de Ordinário do próprio rito. Autor de numerosos livros e artigos. Membro da Academia Mineira de Letras. Grão-chanceler da PUC-Minas.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

São Francisco Xavier, o Apóstolo do Oriente



São Francisco Xavier: padroeiro das Missões.
Por Padre Geovane Saraiva*

De acordo com o pastor dos empobrecidos, DOM Helder Câmara, “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu”.1  É exatamente esta afirmação que faz refletir um pouco sobre São Francisco Xavier (1506-2006), considerado o Apóstolo do Oriente, “o gigante da história das missões”. Ele um sonhador, cheio de ambição e vaidade! Homem talentoso e de inteligência privilegiada, estudante da Universidade de Paris, doutorando-se em 1526. Ao iniciar sua vida acadêmica em Paris, logo conheceu Inácio de Loyola, com quem estabeleceu uma sólida e estreita relação de amizade. E foi justamente essa amizade, no diálogo e nas constantes conversas, como também uma intensa vida oração, que o transformou por completo, passando de sonhador e idealista para uma realidade concreta, na sua opção pelo projeto de Nosso Senhor Jesus Cristo, dizendo não à glória do mundo, vaidades e riquezas.

Deus entrou em cheio na sua vida e foi mais forte, através de seu colega Inácio de Loyola, estudante muito especial daquela referida Universidade, a qual ele integrava, um recém-convertido, que sonhava formar um grupo de irmãos corajosos para dilatar o Reino de Deus. Aquele que ficou conhecido como o grande mestre dos exercícios espirituais, foi ao encontro do jovem Francisco Xavier, seu conterrâneo e futuro pai espiritual, a fim de ganhá-lo, no seu grande desejo de contribuir na edificação do Reino de Deus. Assim Francisco Xavier colocou o amor para si: “Parou de dar volta ao redor de nós mesmos como se fosse o centro do mundo e da vida”.2    

Seus sonhos e projetos eram antagônicos. Contudo, o mestre e fundador da Companhia de Jesus, na sua fé e confiança inabalável, insistentemente suplicou a Deus Pai, até seduzi-lo. “Que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?” (Mt 16, 26). A frase do Mestre e Senhor, dita por Inácio de Loyola foi penetrante e incisiva, marcando profundamente a mente e o coração do jovem Francisco Xavier, dobrando sua resistência e entregando-se inteiramente a Deus, a ponto de tê-lo por seu incondicional e fiel discípulo, compreendendo sua decisão como um mistério insondável, na assertiva de Dom Helder: “Missão é partir, mas não devorar quilômetros. É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los”.3

Mas para Francisco Xavier missão foi deixar sua terra e partir: “E, se para encontrá-los e amá-los, é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo”,4 porque a Índia o esperava, na catequese de crianças e adultos, os quais sempre em número elevado acorriam para receber os sacramentos. Levou por toda parte por onde passou a mensagem do Evangelho. Visitou Ilhas longínquas, penetrou no Japão, formando lá sólidas comunidades de fé, de tal modo, que sua vida se caracterizou no imperativo de enviado do Pai, quando mesmo disse: “Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Também no lema da Campanha Missionária deste ano 2013: “A quem eu te enviar, irás” (Jr 1, 7). Seu inigualável ardor missionário chegou a ponto de se consumir em favor do anúncio do Evangelho, que num curto espaço de tempo (10 anos), visitou países e catequizou em diversas nações, tornando-se quase impossível imaginar tal prodígio e façanha nos dias de hoje. Podemos contemplar maravilhados e agradecidos, aos olhos da fé, seu trabalho de gigante.

Antes de morrer, aos 46 anos, no dia 03/12/1552, escreveu a Inácio de Loyola assim: “São muitos os que não se tornam cristãos, simplesmente por falta de evangelizadores e missionários”, tendo na mente e no coração o que o Apóstolo Paulo anunciou com grande esperança: “Como poderiam ouvir sem pregador? E como poderiam pregar se não forem enviados?” (Rm 10, 14-15). Queria ir pelas Universidades e por toda parte, gritando como um louco e sacudindo as consciências daqueles que se comportam e agem mais pela razão do que pela fé, clamando: “Como é enorme o número dos que são excluídos do Reino, por vossa culpa!”. Ele era considerado o missionário da China pelo seu ardente desejo e vontade de anunciar o Evangelho aquele povo, chegando a dizer, “se eu não encontrar um barco para ir à China, vou nadando, mas eu vou”.

Agradecemos ao nosso bom Deus, por São Francisco Xavier, padroeiro das Missões juntamente com Santa Teresinha do Menino Jesus. Ele, criatura de Deus, apaixonado pelo Reino, com uma disposição interior para o trabalho missionário, no seu jeito de viver e testemunhar a fé que professou, ao plantar a semente do Evangelho no Oriente. Que a Igreja, sacramento de salvação, continue corajosamente, com grande sabedoria e ardor, a anunciar o Evangelho por ele anunciado aos homens hodiernos por toda extensão da terra. Deus seja louvado por este irmão querido, considerado maior missionário de todos os tempos!
______________

1 Missão é partir – Poesia de Dom Helder Câmara.

2 Idem.

3 idem.

4 Idem.
* Padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso. É autor dos livros “O peregrino da Paz”, “Nascido Para as Coisas Maiores”, “A Ternura de um Pastor”, “A Esperança Tem Nome”, "Dom Helder: sonhos e utopias" e "25 Anos sobre Águas Sagradas”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ADVENTO




Entramos no mês de dezembro. E no calendário litúrgico, seguido por nós católicos, estamos no Advento, palavra derivada do latim Adventus, que significa uma época de espera. Época de preparar a vinda de Jesus para a terra.
Esse período que antecede as festas de Natal e pede de nós, enquanto cristão, uma preparação espiritual, pode ser utilizado também para uma avaliação profissional, social e pessoal. É portanto hora de encontrarmos com nossa consciência e assumirmos, perante nós mesmos, os erros e acertos praticados no dia-a-dia do ano que está terminando.
A vida tem que ser um movimento de ascensão no seu conjunto total e, principalmente no seu conjunto humano.
É necessário saber se a experiência acumulada em mais um ano de vida, contribuiu para melhorarmos nossas atitudes, nossos julgamentos, nossa maneira de agir.
A experiência ficaria sem sentido se nós não nos propuséssemos a uma meta que nos levasse a superar nossas deficiências a cada ano que passa. E uma das metas que merece grande empenho e deve ser conquistada por todos nós é a solidariedade.
Sobre este item devemos refletir muito para saber se crescemos nesse “Caminhar juntos” nesse “mãos dadas” que tanto pregamos.
Vamos aproveitar este mês para repensar nossas vidas. Não podemos deixar que o verdadeiro espírito do Natal se apague e seja transformado numa festa apenas comercial. O advento é uma época de espera de melhoria de vida. É a esperança de renovação. O nascimento de Cristo é a realidade da renovação. Interiormente todos nós temos que ter um Natal para podermos dizer: Amanhã seria melhor.
A coroa do Advento é toda verde como se pode ver exposta no altar.
Lembra a forte esperança do povo de Deus pela vinda do Messias.
As velas simbolizam os 4 domingos do Advento que precedem o Natal.
No 1º domingo do Advento acendemos a 1ª vela (verde) que recorda o profeta Isaías que suspirava pela vinda do salvador.
No 2º domingo acendemos a 2ª vela (roxa) que simboliza João Batista que mandou preparar o caminho do Senhor, com o batismo de penitência.
No 3º domingo acendemos a 3ª vela (branca) que lembra a Virgem Maria. Ela é porta que liga a antiga e a nova aliança.
A 4ª vela (vermelha) simboliza Cristo. A grande luz que brilhou na noite de Natal, fazendo desaparecer a tristeza e surgir a alegria da libertação.

                             Carlos Queiroz - Pastoral da Comunicação

sábado, 24 de novembro de 2012

Onde está o Reino de Deus?





Jesus anuncia o Reino de Deus, o Reino da vida. Nele devem participar sobretudo aqueles que foram privados da vida, isto é, os pobres e oprimidos. Mas onde está o Reino de Deus? Anunciado por Jesus há mais de dois mil anos, mas o que vemos é um mundo cada vez mais violento e opressor, uma desagregação geral das famílias, dos jovens pelas drogas, pelo consumo excessivo de produtos que nos são impostos pela mídia. Sem falarmos de uma vasta rede de supermercados da fé, vendendo e apresentando através de seus pacotes promocionais para a prosperidade uma solução fácil e induzindo para que fechem os olhos aos sofrimentos de nossos irmãos, empobrecidos e excluídos de nossa sociedade.
Onde está, então o Reino de Deus? Em Lucas 17, 20-21, Jesus Cristo diz: o Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: Ei-lo aqui...Ei-lo acolá; porque na verdade o reino de Deus já está no meio de vós. Se Cristo diz que já está no meio de nós, é muito importante para nós que procuremos reconhece-lo. O homem, sedento de notícias, sempre à procura de algum sinal de esperança para sua vida, não pode ficar indiferente diante desta grande notícia.
 Mas se o Reino não chega com aparatosa ostentação, se não vê, pelos caminhos da publicidade demagógica, se não se pode dizer: ei-lo aqui ou ali, é bem possível que sua descoberta exija do homem algumas atitudes especiais. “Nós devemos procurar nos evangelhos os sinais que nos permita reconhecê-lo.”
O Reino nasce no coração do homem. Chega quando o homem se converte, mas não é uma conversão imposta por interesse, mesmo porque Deus não se impõe. Ele propõe e convida e as pessoas são livres e devem decidir livre e conscientemente se aceitam ou não o Reino, isto é, se aceitam ou não comprometer-se com Jesus. Aceitar significa mudar radicalmente, deixando o egoísmo que gera a desigualdade e a injustiça, para aceitar o compromisso com Jesus e sua ação, tornando-se disponível ao amor que gera a verdade e a justiça, produzindo relações humanas igualitárias, fundadas na partilha e na fraternidade, e nos conduzindo ao encontro dos irmãos. É um desafio à liberdade humana.
Quando o homem acolhe a palavra de Jesus que se revela nos apelos dos irmãos (Mt 25, 31-46), quando reconhece que o próximo não é apenas o vizinho, o amigo, mas também o estrangeiro, o inimigo, qualquer homem (Lc 10, 25-37); quando aprendemos a rezar fraternalmente o “Pai Nosso, venha a nós o vosso Reino”.
Jesus nos fala do Reino com palavras simples, com singelas comparações da vida cotidiana, pois o mistério do Reino não é aberto com as chaves da sabedoria e esperteza humanas, mas é revelado aos simples, aos corações dispostos a acolher o dom de Deus (Mt 13, 11-12). O Reino é uma força transformadora de toda a realidade, é como uma semente: ninguém nota que ela caiu na terra. Mas, se o coração do homem a acolhe, como terra boa, a semente frutifica e produz trinta, sessenta, cem por um (Mt 13, 1-23). Ou como um grão de mostarda que chega e converte-se numa grande árvore (Mt 13, 31-32). Ou como fermento que uma mulher mistura em três porções medidas de farinha para fermentar toda a massa (Mt 13, 33).
Concluiremos dizendo que transformando o coração do homem, o Reino tende a transformar toda a realidade. Inspira projetos concretos de transformação da sociedade. Procura tornar mais humanas, mais justas, as suas estruturas. Como fermento vai transformando a terra dos homens numa terra fraterna, a terra dos filhos de Deus, e é através de uma atitude prática de compromisso, em que as mãos e os pés se empenham para continuar a ação de Jesus.
O Reino de Deus se torna próximo e sempre vai chegando na medida em que as pessoas se comprometem e continuam o que Jesus começou, criando, através da palavra e da ação, o mundo novo que Deus sempre desejou para todos.

                                                                                                          Carlos Albérico

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Igreja do Vaticano II




Há 50 anos começava o Concílio Vaticano II, um evento que mudaria a face da Igreja Católica. Em 11 de outubro de 1962, o papa João XXIII convocava o Concílio Vaticano II, considerado hoje o acontecimento mais importante da Igreja no século XX e descrito pelo próprio pontífice como “um novo Pentecostes”. Uma das instituições mais poderosas e influentes do mundo, que tinha dominado o Ocidente nos séculos anteriores, agora se encaminhava para a modernidade.
O Bem-Aventurado João XXIII apresentou a finalidade principal do Concílio: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz. Por isso, o objetivo principal deste Concílio não é a discussão sobre este ou aquele tema doutrinal. É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de forma a responder às exigências do nosso tempo.
O Concilio Vaticano II se apresenta, ao mesmo tempo, como o resultado de cerca de cinquenta anos de pesquisas pastorais e teológicas e como uma ruptura em relação à Igreja originária do Concílio de Trento. Ao concretizar a manifestação da Igreja num mundo em plena evolução, o Concílio despertou grandes esperanças. O mal-entendido entre a Igreja e o mundo parecia dissipado. Contudo, outras dificuldades surgiram. O Concílio liberou a palavra e uma crise geral da civilização não podia deixar de ter consequências para a própria Igreja.
Em 28 de outubro de 1958, sucedia a Pio XII o cardeal Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII. Aos setenta e sete anos e de origem camponesa, ele tivera uma carreira diplomática variada. Era patriarca de Veneza desde 1953 e tinha a reputação de um bravo homem. De suas estadias em vários países, entre os quais a França, guardou a lição de que o mundo evoluíra muito e de que a Igreja estava ausente de diversos setores da vida. João XXIII, no espírito do Evangelho, desejava simplificar as coisas complicadas. Ele adota um novo estilo pontifical. Primeiro papa a sair do Vaticano desde 1870, ele visita a prisão de Roma, partindo em peregrinação para Loreto e para Assis. Mas, em outros aspectos, permanece inteiramente tradicional.
No dia 25 de janeiro de 1959, João XXIII anunciava sua tríplice intenção de reunir um sínodo para a diocese de Roma, de reformar o direto canônico e de reunir um Concílio para Igreja universal.
Sem ter ideias muito precisas sobre o conteúdo do concílio, João XXIII lhe atribui dois objetivos bastante amplos: Uma adaptação da Igreja e do apostolado a um mundo em plena transformação e o retorno à unidade dos cristãos, que o papa parece planejar para prazos muito curtos, um pouco como a parusia para os primeiros cristãos. Para a Igreja, trata-se menos de lutar contra adversários do que de encontrar um modo de expressão para o mundo no qual vive e que a ignora. É preciso sacudir a poeira imperial que recobre a Igreja.
Em abril de 1963, a encíclica de João XXIII, Pacem in terris, tem uma grande repercussão, porque o papa se dirige a todos os homens de boa vontade e não mais unicamente aos cristãos. Pouco depois, o mundo inteiro segue com emoção a lenta agonia de João XXIII, que morre no dia 3 de junho de 1963. No dia 21 de junho, é eleito papa o cardeal Montini, que assume o nome de Paulo VI. Arcebispo de Milão desde 1954, ele fizera outrora sua carreira no Vaticano na secretaria de Estado. Bastante tímido, de inteligência brilhante, grande trabalhador, místico, ele contrasta com João XXIII e dá uma impressão de fragilidade. Paulo VI decide imediatamente dar prosseguimento ao Concílio.
A segunda sessão (outono de 1963) aborda diversos temas, colegialidade episcopal, ecumenismo e liberdade religiosa, e promulga a constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia, e o decreto Inter mirifica, sobre as comunicações sociais.
No decorrer da terceira sessão (outono de 1964), os padres se confrontam acerca da liberdade religiosa. Vários textos são votados e promulgados: sobre a Igreja (Lumen gentium), o Ecumenismo, as Igrejas Orientais. O Concílio propõe a constituição de um sínodo episcopal que o papa consultará periodicamente.
Na quarta e última sessão (setembro-dezembro de 1965) desembocava no voto e na promulgação de todos os textos discutidos anteriormente. No dia 4 de outubro, Paulo VI fora a Nova Iorque, na tribuna da ONU, na qual sua exortação, “Nunca mais a guerra”, causou uma forte impressão. No dia 4 de dezembro, numa celebração comum, a primeira do tipo para um papa, o Concílio se despede dos observadores não-católicos. No dia 7 de dezembro, em São Pedro de Roma, Paulo VI e o patriarca Atenágoras suspendem as excomunhões mútuas pronunciadas em 1054 entre Roma e Constantinopla. Esse gesto constitui uma etapa importante no caminho da unidade. No dia 8 de dezembro de 1965 ocorre o encerramento solene do Concílio. Tudo se acaba numa grande esperança.
De maneira geral, o Concílio pretendeu ser um Concílio pastoral destinado a falar aos homens desta época. Embora profundamente doutrinal, o Concílio não propôs definições nem condenações.
Com uma teologia que volta às suas fontes, a Constituição sobre a Revelação, Dei Verbum, insiste na unidade da revelação, tradição viva na qual não se devem distinguir artificialmente uma Escritura e uma Tradição oral. A revelação não está cristalizada num texto, mas se conserva no povo crente que nela descobre sem cessar as novas riquezas. O retorno à Palavra de Deus permite uma revalorização, na Igreja Católica, de aspectos tradicionais um tanto esquecidos em função das polêmicas antiprotestantes ou antiortodoxas, o sacerdócio universal dos fiéis, a Igreja como povo de Deus mais que como órgão jurídico, assim como a colegialidade episcopal. Com este último termo designa-se o fato de que, em torno do bispo de Roma, os bispos assumem a responsabilidade coletiva pelo povo cristão.
A abertura para os outros cristãos e para outras religiões e o decreto sobre o Ecumenismo, Unitatio redintegratio, pede que as diferentes confissões cristãs considerem inicialmente aquilo que têm em comum, Cristo e o Evangelho. Não se devem acusar os cristãos não-católicos do pecado de cisma. Mas que os católicos reconheçam também suas diferenças e suas responsabilidades históricas nos cismas, como na declaração do dia 7 de dezembro de 1965 de Paulo VI e de Atenágoras - um dos textos mais novos do Concílios. Nele, o Concílio se esforça por descobrir a parte do conhecimento de Deus mantida em todas as religiões, desde aquelas que são designadas como primitivas até as herdeiras da revelação monoteísta, o judaísmo e o islamismo.
Baseado nisto, o Concílio Vaticano II não quis colocar a fé como tema de um documento específico. E, no entanto, o Concílio esteve inteiramente animado pela consciência e pelo desejo de ter que, por assim dizer, imergir mais uma vez no mistério cristão, para poder propô-lo novamente e eficazmente para o homem contemporâneo. Neste sentido, o Servo de Deus Paulo VI, dois anos depois da conclusão do Concílio, se expressava usando estas palavras: “Se o Concílio não trata expressamente da fé, fala da fé a cada página, reconhece o seu caráter vital e sobrenatural, pressupõe-na íntegra e forte, e estrutura as suas doutrinas tendo a fé por alicerce. Bastaria recordar afirmações do Concílio (...) para dar-se conta da importância fundamental que o Concílio, em consonância com a tradição doutrinal da Igreja, atribui à fé, a verdadeira fé, que tem a Cristo por fonte e o Magistério da Igreja como canal” (Catequese na Audiência Geral de 8 de março de 1967).


 
                                                                       Carlos Queiroz