Trata-se de um diálogo lento, mas constante. Em razão da solenidade dos santos apóstolos, Pedro e Paulo, Bento XVI recebeu no Vaticano uma delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, enviada pelo patriarca Bartolomeu I, no marco da troca de visitas entre a Igreja de Roma e o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, por ocasião das festas de seus respectivos patronos.
A reportagem é de Luca Rolandi, publicado no sítio Vatican Insider, 28-06-2012. A tradução é do Cepat.
A delegação, que entregou ao Papa uma mensagem do Patriarca, era composta, segundo o que aponta o Vatican Information Service, pelo metropolita da França, Emmanuel Adamakis; o bispo Ilias Katre, de Philomelion (EUA); e o reverendo Paisios Kokkinakis, do Santo Sínodo do Patriarcado Ecumênico.
A festividade dos santos Pedro e Paulo, disse Bento XVI aos representantes do Patriarcado Ecumênico “nos dá a oportunidade de agradecer ao Senhor as obras extraordinárias que fez e continua fazendo por meio dos apóstolos na vida da Igreja. Sua pregação, selada pelo testemunho do martírio – observou – é a base sólida e perene sobre a qual se assenta a Igreja,
e na fidelidade ao depósito da fé, que nos tem transmitido, encontramos
as raízes da comunhão que já experimentamos entre nós”.
“Em nosso encontro – ao mesmo tempo em que pedimos a intercessão dos gloriosos apóstolos e mártires, Pedro e Paulo,
nossa súplica é para que o Senhor [...] nos conceda chegarmos
preparados para o dia abençoado em que possamos compartilhar a mesa
eucarística – damos-lhe graças pelo caminho de paz e reconciliação que
nos faz percorrer juntos. Neste ano, completa-se o quinquagésimo
aniversário de abertura do Concílio Vaticano II, [...] e foi nesse Concílio que, como vocês sabem, estiveram presentes alguns representantes do Patriarcado Ecumênico na qualidade de Delegados fraternos, quando foi aberta uma nova fase importante das relações entre nossas Igrejas. Louvemos o Senhor, primeiramente, pelo redescobrimento da irmandade profunda que nos une, e também pelo caminho percorrido nestes anos pela Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa, em seu conjunto, com a esperança de que, também na fase atual, progrida”.
“Recordando o aniversário do Concílio Vaticano II, acredito que é justo rememorar a figura e a atividade do inesquecível patriarca ecumênico Atenágoras [...] que junto ao beato João XXIII e o servo de Deus, Paulo VI, animados com a paixão pela unidade da Igreja, que nasce da fé em Cristo Senhor, promoveram valorosas iniciativas que solidificaram o caminho e as relações renovadas entre o Patriarcado Ecumênico e a Igreja católica. Alegra-me, profundamente, que sua santidade Bartolomeu I continue com renovada fidelidade, e criatividade fecunda, o caminho traçado por seus predecessores, os patriarcas Atenágoras e Dimitrios, e que seja conhecido, em todo o mundo, por sua abertura ao diálogo entre os cristãos e por seu compromisso em anunciar o Evangelho no mundo contemporâneo”, finalizou o Santo Padre.
Este blog tem como objetivo divulgar as atividades da Paróquia Nossa Senhora das Candeias - Av. Ulisses Montarroyos, 6375 Candeias 54460-280 Jab. dos Guararapes – PE Tel./Fax.: 3478.0162 Ereção: 25.03.1984 e Instalação: 25.08.1984 Pároco: Pe. Paulo Sérgio Vieira Leite E-mail: pascom.candeias@gmail.com secretariaparoquialcandeias@gmail.com
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Uma nova espiritualidade global?
A reportagem é de Antoine Dhulster, publicada na revista Témoignage Chrétien, 23-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Em seu último livro, você explica que a nossa época assiste ao surgimento de uma nova religião: o indivíduo-globalismo. Você não vai um pouco longe demais ao defini-la como uma religião?
Tudo depende do que se entende por religião. Para mim, é o âmbito das atividades humanas em que se desenvolvem as instituições especializadas na produção e na difusão de mitos. Os mitos são os grandes relatos implícitos, impensados, aos quais todos nós aderimos. Eles estruturam a nossa existência e lhe dão um sentido. E isso, muito além da esfera "religiosa" em sentido estrito.
Por exemplo, no mundo cristão, a crença não se detém nas portas das igrejas. Ela está difundida em toda a sociedade, até mesmo nas atividades cotidianas. Eu acredito que o nosso mundo desenvolvido, ou pós-industrial, está submetido a uma nova tensão mítica, a um novo grande relato. Nesse novo marco, o indivíduo busca a sua realização, a resposta às suas perguntas metafísicas, em um processo que inclui preocupações globais: a ecologia, a paz mundial etc. A tensão entre essas duas dimensões – individual e global – é o que chamo indivíduo-globalismo.
Em que se baseia essa espiritualidade?
Em primeiro lugar, em uma visão moderna do ser humano, radicalmente diferente daquela que dominou durante séculos. Na antiguidade grega, pensava-se o ser humano como uma pessoa que adquiria sua dignidade na participação na vida da polis. Depois, dependendo dos contextos e das épocas, na vida da tribo, da família e da nação. Na época moderna, nasce o indivíduo. O conceito de indivíduo é a ideia segundo a qual o ser humano se volta à sua subjetividade, que é abissal, e que se torna, ela mesma, uma espécie de transcendência. Segundo elemento: a nossa visão de mundo. Também a partir da época moderna, se desenvolve uma visão do nosso universo como um conjunto infinito.
Até esse momento, a própria ideia de infinito era muito negativa. Os gregos pensavam o cosmos como algo perfeito, porque finito, determinado. Em pensadores como Kant, no fim do século XVIII, vê-se aparecer, portanto, essa dupla noção de indivíduo, que conquista a sua subjetividade em um mundo que se pensa já infinito. A lei moral está nele, como subjetividade abissal. E, por outro lado, há o universo infinito, o céu estrelado acima dele. No século XIX, particularmente com o movimento romântico, esse esquema de pensamento supera o quadro da razão e conquista o campo da emoção. Depois, alcança os nossos modos de viver. Antes marginalmente, em comunidades como a de Monte Verità, na Suíça, depois de forma espetacular com a Nova Era nos anos 1960 e com as nossas preocupações místicas e ecológicas hoje.
Eu tento mostrar que há uma continuidade entre esse longo processo intelectual – a subjetividade do sujeito e o mundo pensado como infinito – e o nosso modo de viver atual. Os mesmos elementos são mobilizados, na busca do bem-estar pessoal nos atos mais cotidianos e, ao mesmo tempo, com a preocupação de um equilíbrio global. Se alguém tivesse hibernando nos anos 1970 e se acordasse agora, constataria que os hippies tomaram o poder. Muitos pensadores analisaram essa reviravolta como a da pós-modernidade. Pessoalmente, defendo a ideia de que a pós-modernidade é a modernidade em atos.
Como imaginar a relação entre o indivíduo-globalismo e as religiões institucionais?
Há uma coexistência entre esse esquema e as grandes religiões. Estas continuam existindo porque o velho mundo, que as criou, ainda existe. Mas estamos em um período de transição. E, a meu ver, existem três possibilidades para as grandes religiões: ou resistem agarrando-se ao passado e, nesse caso, haverá a fuga dos fiéis; ou fazem compromissos com a modernidade e se mantêm vivas; ou antecipam as transformações futuras e, nesse caso, aumentarão seus fiéis.
Concretamente: no cristianismo, uma parte do indivíduo-globalismo, na sua versão emocional, se manifesta nos movimentos evangélicos, que veiculam uma efervescência coletiva e fazem com que os fiéis acreditem que poderão mudar as suas vidas. A Igreja Católica resistiu a essa mudança trazida pelos evangélicos. Resultado: perdeu todos os ciganos franceses, ou se tornaram praticamente neoevangélicos, embora continuando a praticar o culto de Maria, que normalmente é incompatível com o culto protestante, mas isso não é problema para eles. Em um certo ponto, a Igreja começou a compreender esse movimento e "enquadrou" a renovação carismática. Assim, ela passou para a segunda atitude, a da negociação.
Então, a Igreja Católica ainda tem uma carta na manga com relação à modernidade?
Sim, de forma evidente. O indivíduo-globalismo é o produto da modernidade. Mas também devemos lembrar que a modernidade é o produto da evolução dialética do cristianismo, do qual a Igreja Católica participa há 2.000 anos. A relação com o indivíduo pensado como sagrado está presente cristianismo mediante a ideia de encarnação. Lembremos ainda que a filosofia iluminista é um desenvolvimento da teologia cristã em um certo nível. Ora, é justamente a filosofia iluminista que faz nascer o indivíduo-globalismo. Portanto, a Igreja Católica pode se recompor compativelmente com esse novo mito. E ela já faz isso, através das suas redes e das suas ONGs que levam a voz católica ao mundo, à ONU, às instituições internacionais... Mas essa mudança de paradigma pressupõe o abandono de uma parte da sua dogmática, que a mantém nos velhos esquemas.
A Igreja poderia abandonar a sua dogmática? Você acredita nisso?
Pode haver uma resistência muito forte, mas a história nos mostra que a necessidade faz a norma. Por enquanto, a Igreja não está à beira do abismo, mas, quando chegar ao ponto em que não poderá nem mesmo manter o Vaticano, acho que ela aceitará reinterpretar o seu dogma.
Você certamente percebeu que a tendência atual, ao contrário, é o do retorno à Tradição...
Certamente, é um reflexo clássico, provocado pelo medo. Quando temos medo, nos retraímos. Falando em termos de imagem, constroem-se barragens para se proteger das correntes dominantes. Mas, ao fazer isso, proibimo-nos de pensar ou de compreender essas correntes, fixamos a atenção sobre as barragens artificiais. É o mesmo processo do debate francês sobre a identidade. Se fazemos um debate sobre a identidade, significa que a identidade não é mais evidente. Naturalmente, a identidade é algo impensável. Se eu preciso torná-la reflexivo, quer dizer que ela não existe mais. É a mesma coisa para a religião. Quando um indivíduo quer se pensar tradicional, ou integralista, constata implicitamente que a sua tradição morreu.
Que fé, que conteúdo você vê para essa nova espiritualidade que anuncia?
As religiões se recompõem em torno a uma noção central, a energia, que é, ao mesmo tempo, salvadora e pessoal. Daí a noção de conexão, de conectividade entre o individual e o global, entre o indivíduo e a natureza. Nesse contexto, o próprio dogma católico é reinterpretado com essa ideia de energia. É preciso pensá-lo perto do imaginário da ioga, da espiritualidade oriental.
Então a sua tese é a de uma releitura da tradição cristã em uma versão sincrética influenciada pelas outras formas de espiritualidade?
Sim, e isso terá como resultado tornar-nos bipolares. Interiorizaremos, cada um de nós ao nosso nível, as culturas diferentes à nossa. Por exemplo, incensaremos o taoísmo ou o budismo, porque se pressupõe que sejam próximos à natureza. E, simetricamente, rejeitaremos o catolicismo... mas só em um primeiro momento, porque certos aspectos do catolicismo permitem pensar a ecologia, a união com a natureza, o equilíbrio global. É neste jogo de confrontos que o rolo compressor indivíduo-global avança e aproxima as religiões, focando-se na sua estética, mas removendo-lhes o seu núcleo dogmático. As religiões tornam-se pouco a pouco intercambiáveis. Na prática, vê-se o aparecimento de híbridos: faz-se ioga cabalística, gi gong cristão ou meditação zen recebendo a comunhão...
Mas, na prática, todos esses comportamentos continuam sendo individuais, muito limitados. Que relação existe com a prática religiosa da maioria?
Isso é muito menos limitado do que se pensa. No Ocidente, essa espiritualidade é levada adiante pela classe média. Falando em termos midiáticos, os "bobo" [neologismo criado pelo jornalista norte-americano David Brooks a partir da contração de "burguês-boêmio", para se referir a uma pessoa de um certo nível de vida com um estilo de vida pouco convencional]. Mas não só. Poderiam ser acrescentados os católicos de esquerda, muito interessados no diálogo inter-religioso ou o âmbito humanitário, processos indiscutivelmente indivíduo-globais.
As outras partes da população aderem ao mito indivíduo-global, mas não podem se permitir isso completamente, eu poderia dizer. O indivíduo-globalismo é a cor dominante do quadro, mas uma parte da população o percebe como degradado. Nem todos vivem o conhecimento de si mesmo, a realização pessoal, mas todos aspiram a isso. O único que chega a viver essa busca no seu cotidiano é o "bobo" no seu trabalho. Mas a busca, no entanto, se refere a todos. Assim, os outros vão viver os mesmos problemas... no seu tempo livre, fazendo estágios de desenvolvimento pessoal, viagens espirituais, consumindo produtos orgânicos etc.
E em escala planetária?
Encontramos a mesma assimetria. Aqueles que são objeto dos novos cultos (os povos tradicionais, por excelência) sabem que fazem parte do cenário da experiência espiritual que os cidadãos das sociedades pós-industriais buscam viver. Eles mesmos são obrigados a imaginar o que aqueles turistas esperam esteticamente para fazer com que vivam uma experiência. Senão, perdem a força de atração econômica. Portanto, há uma forte pressão ideológica, em que aqueles que jogam esse jogo de papéis (o que eu chamo de "hiperbeduínos" ou "hiperzulus") acabam se afastando do "núcleo" da sua cultura para corresponder às expectativas dos cidadãos das sociedades pós-industriais. Desse ponto de vista, a "valorização" do outro, na realidade, contribui para a sua destruição identitária. Em escala planetária, é a uniformização. As únicas diferenças que restam são estéticas, permitem viajar e viver a aventura para progredir interiormente e encontrar a si mesmos.
Essa mudança lhe parece irreversível?
Sim. Há precisamente a formação de um fundo mítico comum a toda a humanidade, que corresponde a uma situação política, econômica, em que todos já tomaram consciência da condição dos outros. Portanto, não é possível voltar atrás. Quais serão as consequências dessa revolução em algumas décadas? Poderão ser positivas ou negativas. Pode-se até imaginar um integralismo indivíduo-globalista: seitas de loucos poderiam querer destruir a humanidade ou instaurar uma ditadura anti-humanista por causa das devastações causadas pelos seres humanos ao meio ambiente. É possível. Assim como é possível um mundo em que a realização pessoal se tornará a norma dominante. O roteiro ainda está para ser escrito.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Autorrealização não é conquistada no poder, explica Bento XVI
A lógica humana busca muitas vezes a autorrealização no poder, no
domínio, mas a Encarnação e a Cruz “nos recordam que a plena realização
está no conformar a própria vontade humana àquela do Pai, no esvaziar-se
do próprio egoísmo para encher-se do amor e da caridade de Deus” e,
assim, ser capaz de amar os outros. Foi o que enfatizou o Papa Bento XVI
na audiência geral desta quarta-feira, 27.
Na Sala Paulo VI, no Vaticano, o Pontífice deu continuidade ao ciclo de
catequese sobre a oração segundo as Cartas de São Paulo. Desta vez, ele
refletiu sobre a Carta aos Filipenses, escrita enquanto o apóstolo
estava na prisão. Mesmo diante da morte iminente ele encontra força e
alegria, pois o “Apóstolo nunca afastou seu olhar de Cristo, tornando-se
semelhante a Ele na morte, ‘com a esperança de conseguir a ressurreição
dentre os mortos'".
Assim, o Santo Padre destacou que o homem não consegue se encontrar
fechado em si mesmo. "É necessário ter uma escala de valores na qual em
primeiro lugar está Deus, para afirmar como São Paulo: ‘julgo como perda
todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de
Jesus Cristo, meu Senhor’ (Fl 3,8). O encontro com o Ressuscitado lhe
fez compreender que é Ele o único tesouro pelo qual vale a pena gastar a
própria existência", salienta Bento XVI.
Como rezar
O Papa também especificou qual a melhor maneira de rezar, ressaltando
que a oração é feita de silêncio e palavra, de canto e de gestos que
envolvem a pessoa inteira: da boca à mente, do coração ao corpo inteiro.
"O ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento ou colocar-se de joelhos
na oração expressa justamente a atitude de adoração diante de Deus,
também com o corpo. Daí a importância de fazer isso não por hábito, com
pressa, mas com profunda consciência. Quando nos ajoelhamos diante do
Senhor, nós professamos a nossa fé Nele, reconhecemos que é Ele o único
Senhor da nossa vida”, afirmou.
Por fim, o Santo Padre aconselhou os fiéis a fixar o olhar sobre o
crucifixo durante a oração, colocar-se em adoração mais vezes diante da
Eucaristia e entregar a própria vida ao amor de Deus, "que se inclinou
com humildade para elevar-nos até Ele".
Fonte: Canção Nova
Dom Jaime receberá pálio das mãos do Papa
Postado pela Assessoria de Comunicação CNBB NE2
No próximo dia 29, Solenidade de
São Pedro e São Paulo, o Arcebispo de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha
estará entre os arcebispos, de várias partes do planeta, que receberão o
pálio, das mãos do Papa Bento XVI. A cerimônia acontecerá na Basílica
de São Pedro, no Vaticano. Receberão o pálio os arcebispos pelo Papa
nomeados entre julho do ano passado até agora.
Dom Jaime viajará a Roma, na próxima sexta-feira dia 22, e retornará a
Natal nos dias primeiros dias de julho. Também viajarão à capital
italiana, para participar da celebração, o Arcebispo emérito de Natal,
Dom Matias Patrício de Macêdo, e um grupo de mais de vinte sacerdotes,
além de fiéis leigos, entre os quais familiares de Dom Jaime.
O que é o pálio?
É uma espécie de colarinho de lã branca, com cerca de cinco centímetros
de largura e dois apêndices, sendo um na frente e outro nas costas.
Neste, são bordadas seis cruzes.
O pálio é confeccionado com a lã de ovelhas, ofertadas ao Papa por
jovens romanas, no dia 21 de janeiro de cada ano, data da festa de Santa
Inês. A lã é, posteriormente, tecida pelas monjas beneditinas, do
Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. Depois, os pálios são abençoados
pelo Papa e colocados sobre o túmulo do Apóstolo São Pedro, na Basílica
Vaticana. Anualmente, no dia 29 de junho, os pálios são levados do
túmulo de São Pedro para a celebração eucarística e colocados sobre o
colarinho dos novos arcebispos.
Nos primeiros séculos da era cristã, o Pálio era usado somente pelos
Papas. A partir do século sexto, a indumentária passou a ser usada
também pelos arcebispos metropolitanos.
Fonte: Pascom da Arquidiocese de Natal
A dignidade da diferença
A dignidade da diferença
Confira a análise do teólogo Faustino
Teixeira, professor e pesquisador Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Religião – UFJF, ao comentar a despedida do cardeal Carlo Maria
Martini, arcebispo emérito de Milão.
Ao
ler hoje pela manhã o IHU notícias (27/06/2012), deparei-me com a
informação de que o grande cardeal Martini se despedia de sua coluna no
jornal italiano Corriere della Sera. Dizia que chegara o momento em que,
por razões da idade e da doença, deveria se retirar de suas atividades e
empenhos para preparar-se para o encontro decisivo com o Mistério de
Deus. Fiquei, de certa forma, entristecido, pois ele sempre foi para mim
um fator de alegria, incentivo e esperança na luta em favor de uma
Igreja mais fraterna e solidária.
Nesses “tempos difíceis”, sua voz serena, corajosa e audaz vai nos fazer muita falta. Em todo o meu itinerário teológico pude acompanhar atentamente suas produções, seus sermões e suas lindas intervenções nos campos da pastoral e da vida social. Foi sempre uma alegria renovada entrar em contato com suas instigantes provocações. É na verdade, um fiel seguidor de uma Igreja primaveril, um autêntico “amigo de Deus”, e são eles, como tão bem indica Simone Weil, que nos facultam o exercício singelo da manutenção do olhar fixado intensamente em Deus.
O cardeal Martini foi aquele que sempre esteve nos meus sonhos em favor de uma Igreja mais profética, solidária e aberta. Nos últimos dois conclaves, foi por ele que o meu coração bateu mais forte. Talvez a figura mais nobre que um cargo tão complexo, exigente e difícil, poderia fazer jus. O cardeal Martini, jesuíta de ternura e vigor, foi durante muitos anos – de 1980 a 2002 -, arcebispo de Milão, a maior diocese do mundo. Ali atuou de forma impressionante, deixando uma marca que não poderá jamais ser esquecida. É também um dos mais importantes biblistas que temos.
Sua reflexão sobre Jesus é apaixonante. A forma como nos confronta com Jesus de Nazaré é singular e provocadora. Como sinalizou Georg Sporschill, ele nos apresenta Jesus em perspectiva distinta à apresentada por papa Bento XVI em seu livro sobre o itinerante de Nazaré. A partir de sua visada, o Jesus que nos vem revelado “é o amigo dos publicanos e pecadores. Ele escuta a pergunta dos jovens. Ele provoca inquietações.
Ele luta conosco contra as injustiças”. Foi essa perspectiva que pude ver, com grande alegria, no seu livro sobre O itinerário espiritual dos doze (1981), onde aborda o Evangelho de Marcos. Com essa obra ele nos ajuda a rever, refletir e pensar sobre a nossa caminhada interior com base no itinerário espiritual dos doze discípulos. Nos ajuda a trabalhar o difícil confronto interior em favor da decisão de dar prosseguimento na história ao caminho de Jesus. Assim como os discípulos, nós também temos dificuldades de compreender os desafios da missão e de ver com clareza o horizonte a seguir.
O conselho que vem do mestre Martini é simples: basta sair de uma situação marcada pelo orgulho e suficiência e deixar-se habitar por atitude de humildade, de “ignorância”, com a disposição acesa e atenta da audição. Sublinha que esta deveria ser a atitude fundamental de quem se coloca diante do Mistério de Deus, para poder ouvir o que Ele nos quer comunicar. Nada mais importante, sublinha, do que “olhar com atenção”. Mesmo que não se consiga explicar o que há de belo no mundo, e no outro, “a admiração diante da beleza pode me levar a Deus”.
Outro traço que sempre percebi em suas reflexões foi o da abertura ao outro, ao seu mistério indiscernível. Em livro publicado em 2000, Sobre o corpo, o cardeal Martini trata questões difíceis como a doença e o limite. Indica que a doença não é um incidente fortuito, mas nos coloca irremediavelmente diante de limites bem precisos. Desvela ainda algo que está “escondido” em nós mesmo quando nos sentimos saudáveis, mas que aparece um dia, com sua patente realidade, fazendo emergir a verdade de nossa limitação e pobreza. É esse mesmo corpo que coloca para nós, de forma viva, a questão do outro e o desafio imprescindível da relação. Diz Martini: “O outro é, porém, um mistério que escapa a qualquer analogia e redução de semelhança; se quero possuí-lo não é mais ´outro`, e permaneço só, sem nenhum outro”. Não há lugar para o belo Narciso, que se afoga em sua própria imagem e reflexo. Sublinha ainda que esse amor aos outros nunca o afastou de sua comunidade. Ao contrário, diz ele: “Quanto mais convivo com os outros, tanto mais amo a Igreja”.
Um dos maiores desafios assumidos por Martini em sua trajetória foi a defesa desse outro, e sempre com base em Jesus de Nazaré. No livro Diálogos noturnos em Jerusalém (2008), trata da importância de levar a sério a abertura e universalidade que envolve a expressão “católica”. E o caminho que aponta é o seguimento de Jesus. Foi ele que “tornou visível o amor de Deus por meio de sua vida e de suas palavras”. E o que caracteriza esse amor é sua proximidade com os outros, sobretudo os mais necessitados e pobres. Foi alguém que “optou pela vida itinerante e, assim, estar disponível para todos e não construir muros ao seu redor. Jesus foi ao encontro dos estranhos. E o que é mais importante: era capaz de difundir seu amor”. Como assinala Martini, é o nosso grande mestre nessa abertura aos estranhos.
Levando a sério esse desafio, Martini dedicou-se por muitos anos em Milão ao diálogo com os muçulmanos. Um de seus lindos trabalhos a respeito ganhou grande notoriedade: “Nós e o Islã – da acolhida ao diálogo”. Trata-se de um discurso que ele proferiu na vigília do dia de Santo Ambrósio, em dezembro de 1990. Reconhece em seu discurso os grandes valores religiosos e morais que marcam a tradição islâmica, e que tanto ajudaram “centenas de milhões de homens a prestar a Deus um culto honesto e sincero, bem como a praticar a justiça”. É no respeito a tal dignidade que os cristãos são convocados ao diálogo com os muçulmanos, e na sua dinâmica poder refletir e aprender sobre sua “forte experiência religiosa”, destinada a restituir a Deus, com gratuidade, um mundo a ele intimamente vinculado.
Levou também o diálogo ao pórtico dos não-crentes. Nos debates com Umberto Eco, registrados no livro Em que crêem os que não crêem (1999), trata com grande honestidade e seriedade essa questão. O que está em jogo, fundamentalmente, é a questão ética, o lugar da ética, “no qual se decide o futuro meta-histórico da aventura humana”. Partilha com Eco da idéia de uma esperança comum que irmana crentes e não-crentes, que transparece sobretudo na prática. Diz Martini:
“É possível ver crentes e não crentes vivendo o presente, dando-lhe sentido e empenhando-se com responsabilidade. Isto é particularmente visível quando alguém se coloca, gratuitamente, por sua conta e risco, a serviço de valores elevados, sem nenhuma retribuição visível. Quer dizer, portanto, que existe um húmus profundo que crentes e não-crentes, pensantes e responsáveis, alcançam, sem que, no entanto, consigam dar-lhe um mesmo nome”.
Martini reconhece o valor e a dignidade da ação ética de muitas pessoas, com “elevado altruísmo”, sem que estejam animadas por um fundamento transcendente em sua ação.
Sobre o seu sonho de Igreja
“Antigamente eu tinha sonhos em relação à Igreja. Sonhos de uma Igreja que seguisse seu caminho na pobreza e na humildade, de uma Igreja que não dependesse dos poderes do mundo (...). Com uma Igreja que desse lugar às pessoas que pensam o futuro. Com uma Igreja que encorajasse especialmente àqueles que se sentem sozinhos ou pecadores. Eu sonhava com uma Igreja jovem”.
Em seus colóquios de Jerusalém, na ocasião, com avançados 75 anos, revelou que esses sonhos tinham se diluído e que agora rezava pela Igreja. Mas ainda vigorava em seu peito o grande sonho de Teilhard, que via “o mundo caminhar em direção à grande meta, onde Deus será tudo em todas as coisas”.
Em sua última coluna, esse grande cardeal de Milão, conhecedor do segredo dos corações e do mistério das distintas formas de fé, responde a uma última questão, extremamente difícil, levantada por Francesco Rizzo, que havia perdido o seu filho de 10 anos. Na sua carta, o desencantado pai pedia uma palavra de conforto para poder voltar a viver. E com a resposta de Martini, concluo essa minha breve homenagem a esse grande cristão:
“Caro Franco, não há palavras verdadeiras de conforto diante de uma dor tão grande, talvez a maior dor para um ser humano. Eu também não sei lhe indicar caminhos precisos. Posso lhe dizer que rezo por você para que seja Jesus, o Filho, que lhe indique o caminho. Mas certamente não será logo, porque dores tão fortes tiram a força, a visão, a audição e ferem até a nossa força fundamental que é a coragem de enfrentar qualquer acontecimento”.
Nesses “tempos difíceis”, sua voz serena, corajosa e audaz vai nos fazer muita falta. Em todo o meu itinerário teológico pude acompanhar atentamente suas produções, seus sermões e suas lindas intervenções nos campos da pastoral e da vida social. Foi sempre uma alegria renovada entrar em contato com suas instigantes provocações. É na verdade, um fiel seguidor de uma Igreja primaveril, um autêntico “amigo de Deus”, e são eles, como tão bem indica Simone Weil, que nos facultam o exercício singelo da manutenção do olhar fixado intensamente em Deus.
O cardeal Martini foi aquele que sempre esteve nos meus sonhos em favor de uma Igreja mais profética, solidária e aberta. Nos últimos dois conclaves, foi por ele que o meu coração bateu mais forte. Talvez a figura mais nobre que um cargo tão complexo, exigente e difícil, poderia fazer jus. O cardeal Martini, jesuíta de ternura e vigor, foi durante muitos anos – de 1980 a 2002 -, arcebispo de Milão, a maior diocese do mundo. Ali atuou de forma impressionante, deixando uma marca que não poderá jamais ser esquecida. É também um dos mais importantes biblistas que temos.
Sua reflexão sobre Jesus é apaixonante. A forma como nos confronta com Jesus de Nazaré é singular e provocadora. Como sinalizou Georg Sporschill, ele nos apresenta Jesus em perspectiva distinta à apresentada por papa Bento XVI em seu livro sobre o itinerante de Nazaré. A partir de sua visada, o Jesus que nos vem revelado “é o amigo dos publicanos e pecadores. Ele escuta a pergunta dos jovens. Ele provoca inquietações.
Ele luta conosco contra as injustiças”. Foi essa perspectiva que pude ver, com grande alegria, no seu livro sobre O itinerário espiritual dos doze (1981), onde aborda o Evangelho de Marcos. Com essa obra ele nos ajuda a rever, refletir e pensar sobre a nossa caminhada interior com base no itinerário espiritual dos doze discípulos. Nos ajuda a trabalhar o difícil confronto interior em favor da decisão de dar prosseguimento na história ao caminho de Jesus. Assim como os discípulos, nós também temos dificuldades de compreender os desafios da missão e de ver com clareza o horizonte a seguir.
O conselho que vem do mestre Martini é simples: basta sair de uma situação marcada pelo orgulho e suficiência e deixar-se habitar por atitude de humildade, de “ignorância”, com a disposição acesa e atenta da audição. Sublinha que esta deveria ser a atitude fundamental de quem se coloca diante do Mistério de Deus, para poder ouvir o que Ele nos quer comunicar. Nada mais importante, sublinha, do que “olhar com atenção”. Mesmo que não se consiga explicar o que há de belo no mundo, e no outro, “a admiração diante da beleza pode me levar a Deus”.
Outro traço que sempre percebi em suas reflexões foi o da abertura ao outro, ao seu mistério indiscernível. Em livro publicado em 2000, Sobre o corpo, o cardeal Martini trata questões difíceis como a doença e o limite. Indica que a doença não é um incidente fortuito, mas nos coloca irremediavelmente diante de limites bem precisos. Desvela ainda algo que está “escondido” em nós mesmo quando nos sentimos saudáveis, mas que aparece um dia, com sua patente realidade, fazendo emergir a verdade de nossa limitação e pobreza. É esse mesmo corpo que coloca para nós, de forma viva, a questão do outro e o desafio imprescindível da relação. Diz Martini: “O outro é, porém, um mistério que escapa a qualquer analogia e redução de semelhança; se quero possuí-lo não é mais ´outro`, e permaneço só, sem nenhum outro”. Não há lugar para o belo Narciso, que se afoga em sua própria imagem e reflexo. Sublinha ainda que esse amor aos outros nunca o afastou de sua comunidade. Ao contrário, diz ele: “Quanto mais convivo com os outros, tanto mais amo a Igreja”.
Um dos maiores desafios assumidos por Martini em sua trajetória foi a defesa desse outro, e sempre com base em Jesus de Nazaré. No livro Diálogos noturnos em Jerusalém (2008), trata da importância de levar a sério a abertura e universalidade que envolve a expressão “católica”. E o caminho que aponta é o seguimento de Jesus. Foi ele que “tornou visível o amor de Deus por meio de sua vida e de suas palavras”. E o que caracteriza esse amor é sua proximidade com os outros, sobretudo os mais necessitados e pobres. Foi alguém que “optou pela vida itinerante e, assim, estar disponível para todos e não construir muros ao seu redor. Jesus foi ao encontro dos estranhos. E o que é mais importante: era capaz de difundir seu amor”. Como assinala Martini, é o nosso grande mestre nessa abertura aos estranhos.
Levando a sério esse desafio, Martini dedicou-se por muitos anos em Milão ao diálogo com os muçulmanos. Um de seus lindos trabalhos a respeito ganhou grande notoriedade: “Nós e o Islã – da acolhida ao diálogo”. Trata-se de um discurso que ele proferiu na vigília do dia de Santo Ambrósio, em dezembro de 1990. Reconhece em seu discurso os grandes valores religiosos e morais que marcam a tradição islâmica, e que tanto ajudaram “centenas de milhões de homens a prestar a Deus um culto honesto e sincero, bem como a praticar a justiça”. É no respeito a tal dignidade que os cristãos são convocados ao diálogo com os muçulmanos, e na sua dinâmica poder refletir e aprender sobre sua “forte experiência religiosa”, destinada a restituir a Deus, com gratuidade, um mundo a ele intimamente vinculado.
Levou também o diálogo ao pórtico dos não-crentes. Nos debates com Umberto Eco, registrados no livro Em que crêem os que não crêem (1999), trata com grande honestidade e seriedade essa questão. O que está em jogo, fundamentalmente, é a questão ética, o lugar da ética, “no qual se decide o futuro meta-histórico da aventura humana”. Partilha com Eco da idéia de uma esperança comum que irmana crentes e não-crentes, que transparece sobretudo na prática. Diz Martini:
“É possível ver crentes e não crentes vivendo o presente, dando-lhe sentido e empenhando-se com responsabilidade. Isto é particularmente visível quando alguém se coloca, gratuitamente, por sua conta e risco, a serviço de valores elevados, sem nenhuma retribuição visível. Quer dizer, portanto, que existe um húmus profundo que crentes e não-crentes, pensantes e responsáveis, alcançam, sem que, no entanto, consigam dar-lhe um mesmo nome”.
Martini reconhece o valor e a dignidade da ação ética de muitas pessoas, com “elevado altruísmo”, sem que estejam animadas por um fundamento transcendente em sua ação.
Sobre o seu sonho de Igreja
“Antigamente eu tinha sonhos em relação à Igreja. Sonhos de uma Igreja que seguisse seu caminho na pobreza e na humildade, de uma Igreja que não dependesse dos poderes do mundo (...). Com uma Igreja que desse lugar às pessoas que pensam o futuro. Com uma Igreja que encorajasse especialmente àqueles que se sentem sozinhos ou pecadores. Eu sonhava com uma Igreja jovem”.
Em seus colóquios de Jerusalém, na ocasião, com avançados 75 anos, revelou que esses sonhos tinham se diluído e que agora rezava pela Igreja. Mas ainda vigorava em seu peito o grande sonho de Teilhard, que via “o mundo caminhar em direção à grande meta, onde Deus será tudo em todas as coisas”.
Em sua última coluna, esse grande cardeal de Milão, conhecedor do segredo dos corações e do mistério das distintas formas de fé, responde a uma última questão, extremamente difícil, levantada por Francesco Rizzo, que havia perdido o seu filho de 10 anos. Na sua carta, o desencantado pai pedia uma palavra de conforto para poder voltar a viver. E com a resposta de Martini, concluo essa minha breve homenagem a esse grande cristão:
“Caro Franco, não há palavras verdadeiras de conforto diante de uma dor tão grande, talvez a maior dor para um ser humano. Eu também não sei lhe indicar caminhos precisos. Posso lhe dizer que rezo por você para que seja Jesus, o Filho, que lhe indique o caminho. Mas certamente não será logo, porque dores tão fortes tiram a força, a visão, a audição e ferem até a nossa força fundamental que é a coragem de enfrentar qualquer acontecimento”.
Coluna semanal que publicava no jornal italiano Corriere della Sera.
Carta das Religiões e o Cuidado da Terra
Carta das Religiões e o Cuidado da Terra
Quarta-feira, 27 de junho de 2012 - 9h28min
por Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
No Espaço da Coalizão Ecumênica e Inter-religiosa
"Religiões por Direitos", no âmbito da Cúpula dos Povos na Rio+20 para a
Justiça Social e Ambiental, contra a mercantilização da vida e em
defesa dos bens comuns, os líderes religiosos do Brasil signatários,
aderindo à iniciativa da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e
o Diálogo Interreligioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB) e de Religiões pela Paz, reuniram-se para debater a relação entre
as religiões e as questões ambientais. Como resultado do diálogo,
concordou-se que a agenda das religiões na atualidade não deve
desconsiderar a agenda do cotidiano da vida das pessoas na sociedade e
das exigências da justiça ambiental.
A agenda das religiões deve incluir os elementos que
traçam os projetos do ser humano na busca de realização da sua
existência e afirmar compromissos efetivos com a defesa da vida no
planeta. Religiões, sociedade, desenvolvimento sustentável e meio
ambiente não são realidades distanciadas, mas estreitamente correlatas.
As tradições religiosas contribuem para a afirmação dos valores
fundamentais da vida pessoal, sócio-econômica e ambiental, orientando
para a convivência pacífica e respeitosa entre os povos, culturas e
credos, e destes com toda a criação.
Assim, é fundamental na agenda das tradições religiosas hoje:
a) Apresentar ao mundo o sentido da existência
humana. A humanidade vive momentos de pessimismo, com sensação de
fracasso e desânimo, sobretudo nas situações e ambientes de crises
econômicas, de injustiças, de violência e de guerras.
Comprometemo-nos em fazer com que as nossas tradições
religiosas afirmem de modo concreto o valor da vida de cada pessoa,
independente da sua condição social, religiosa, cultural, étnica e de
gênero, ajudando-as na superação dos problemas que lhes afligem no
cotidiano, sejam eles de caráter sócio-econômico-político e cultural,
sejam eles de caráter pisíquico-espiritual.
b) Promover a educação e a prática do respeito
mútuo, do diálogo, da convivência pacífica e da cooperação entre os
diferentes povos, culturas e religiões, fundamental no mundo plural em
que vivemos.
Assumimos o compromisso de trabalhar para a
convergência dos diferentes paradigmas culturais e religiosos dos povos,
como uma possibilidade para melhor entendermos o mundo dentro de suas
inter-relações e a convivência entre todos os seres humanos.
c) Explicitar mais e melhor o que já possuímos em
comum. Nossas tradições já condividem valores religiosos, como a fé em
um Ser Criador, o cultivo da relação com Ele, a compreensão da origem e
do fim de cada pessoa.
Comprometemo-nos a partilhar as riquezas que
possuímos para fortalecer as relações entre nossas tradições, o
enriquecimento e o reconhecimento mútuos, bases para a cooperação
inter-religiosa em projetos que promovem o bem comum.
d) Discernir juntos os valores que constroem a paz
no mundo. Sabemos que a paz não é simples ausência da guerra, mas é
fruto da justiça e da prática do amor.
Comprometemo-nos na promoção da convivência pacífica
entre os povos e o desenvolvimento da fraternidade e da solidariedade
universal, superando todo fundamentalismo e exclusivismo, bem como o
consumismo irresponsável que causam conflitos entre as pessoas e os
povos.
e) Viver a compaixão para com os mais necessitados, empobrecidos e excluídos da sociedade.
Assumimos o compromisso de realizar juntos projetos
sociais que fortalecem a solidariedade nas comunidades religiosas e na
família humana.
f) Promover o valor e o cuidado da criação.
Tomamos conhecimento das ameaças à vida do planeta, conseqüências dos
interesses econômicos que constroem uma cultura utilitarista e
consumista na sociedade em que vivemos.
Comprometemo-nos com o desenvolvimento de uma nova
ética na relação com o meio ambiente, capaz de orientar novas atitudes
defensoras de todas as formas de vida, sustentadas em políticas públicas
de justiça ambiental e numa mística/espiritualidade que explicite a
gratuidade e o dom da vida da criação.
g) Afirmar elementos de uma ética comum que,
sustentada nas convicções religiosas que possuímos, seja capaz de
orientar atitudes e comportamentos de paz e de justiça, tanto dos
membros das nossas tradições como de todos os povos.
Comprometemo-nos a desenvolver novos comportamentos,
com prevalência da ética da tolerância e da liberdade cultural e
religiosa, do respeito às diferenças, da dignidade de toda pessoa, da
convivência entre credos e culturas, dos direitos humanos.
Finalmente, solicitamos à Conferência das Nações
Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20, acolher a contribuição
das religiões para o cuidado da vida na terra, reconhecendo que os
imperativos morais DAS nossas tradições, convicções e crenças, bem como
os nossos esforços de diálogo e cooperação inter-religiosa são
imprescindíveis para alcançarmos o desenvolvimento sustentável de toda a
humanidade.
Exmo. e Revmo. Dom Francisco Biasin
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso daConferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso daConferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Rev. Pe. Peter Hughes
Secretário Executivo do Departamento de Justiça e Solidariedade do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM)
Secretário Executivo do Departamento de Justiça e Solidariedade do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM)
Revmo. Dom Francisco de Assis da Silva
Primeiro Vice-presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)
Primeiro Vice-presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)
Rev. Dr. Walter Altmann
Moderador do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI)
Moderador do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI)
Rev. Nilton Giese
Secretário Geral do Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI)
Secretário Geral do Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI)
Rabino Sergio Margulies
Representante da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ)
Representante da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ)
Sami Armed Isbelle
Diretor do Departamento Educacional e de Divulgação da Sociedade Beneficente Mulçumana do Rio de Janeiro (SBMRJ)
Diretor do Departamento Educacional e de Divulgação da Sociedade Beneficente Mulçumana do Rio de Janeiro (SBMRJ)
Ialorixá Laura Teixeira
Coordenadora Estadual do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileiras - Rio de Janeiro (INTECAB)
Coordenadora Estadual do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileiras - Rio de Janeiro (INTECAB)
Irmã Jayam Kirpalani
Direitora Européia da Universidade Espiritual Mundial Brahma Kumaris
Direitora Européia da Universidade Espiritual Mundial Brahma Kumaris
Elias Szczytnicki
Secretário Geral e Diretor Regional de Religiões pela Paz América Latina e o Caribe
Secretário Geral e Diretor Regional de Religiões pela Paz América Latina e o Caribe
Tu és o Filho de Deus vivo
Tu és o Filho de Deus vivo - José Raimundo Oliva
Quarta-feira, 27 de junho de 2012 - 20h45min
por www.paulinas.com.br
Os três evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus e Lucas,
narram esta controvertida passagem da "confissão de Pedro", cada um
deles imprimindo suas interpretações teológicas pessoais a suas
narrativas. Nos evangelhos de Marcos e Lucas, a resposta de Pedro à
pergunta de Jesus sobre sua identidade é breve: "Tu és o Cristo
(messias)", e merece a repreensão de Jesus. Pedro e os demais discípulos
acreditavam que Jesus seria o messias político esperado, que daria ao
povo judeu a glória e o poder sobre as demais nações, como um novo Davi,
conforme a imagem elaborada pela tradição do Primeiro Testamento. Jesus
censura Pedro por esta compreensão e procura demovê-la da mente dos
discípulos.
Mateus modifica a narrativa original de Marcos e
também adotada por Lucas. Ele dá um novo sentido à resposta de Pedro, à
qual acrescenta a proclamação "Filho de Deus vivo". Segue-se a fala de
Jesus confirmando a profissão de seu messianismo celeste, ao elogiar a
fala de Pedro, declarando-a como revelação divina. Com o acento sobre o
caráter messiânico cristológico de Jesus, Mateus dá uma resposta às suas
comunidades, oriundas do judaísmo. Ele escreve na década de 80, depois
da destruição do Templo de Jerusalém, quando os cristãos inseridos na
comunidade judaica estavam sendo expulsos das sinagogas, que até então
frequentavam. Ele pretende convencê-los de que em Jesus se realizavam
suas esperanças messiânicas moldadas sob a antiga tradição de Israel, de
modo a não se intimidarem sob as ameaças e repressão da sinagoga e
permanecerem na comunidade cristã.
Com a visão teológica de Mateus ficam estabelecidas
duas identidades para Jesus: uma, é "o filho do homem", o simples Jesus
de Nazaré, inserido na humanidade, na sua humildade, e presente entre
ela até o fim dos tempos, porém, dignificando-o e divinizando-o; a outra
é o "cristo" ou "messias" (cristo do grego, messias do hebraico,
significando "ungido"), que é o Jesus ressuscitado, manifestado em
glória nos céus, acima dos poderes celestiais, de onde virá para o
julgamento final.
Embora no Segundo Testamento se perceba conflitos
entre Pedro e Paulo (cf., p. ex., Gl 2,11-14), a liturgia os reúne em
uma só festa. Pedro é lembrado pelo seu testemunho corajoso diante da
perseguição (primeira leitura) e Paulo, por seu empenho missionário em
territórios da diáspora judaica (segunda leitura).
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