sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Diocese de Pesqueira celebrará 95 anos com missa presidida por Dom Fernando Saburido


0114

Para celebrar 95 anos, a Diocese de Pesqueira (PE) prepara programação especial nesta sexta-feira, 2 de agosto. Pela manhã, sacerdotes da região participam de encontro de convivência e confraternização ao lado do bispo diocesano, Dom José Luiz.
O arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, foi convidado e preside Concelebração Eucarística na Catedral Diocesana Santa Águeda a partir das 19h. Sacerdotes, religiosas, seminaristas, leigos e leigas de toda a diocese participarão da Missa .
A celebração dos 95 anos da Diocese de Pesqueira faz parte do projeto “Vida e Missão Rumo ao Centenário”. O evento é preparatório para celebração dos 100 anos da diocese que ocorrerá no dia 2 de agosto de 1918.franquia

Com informações da Pascom – Diocese de Pesqueira

Jovens enviam ao Papa seu compromisso de vida 'pós-JMJ'


Rio de Janeiro - Durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ Rio 2013), o papa Francisco pediu que todos os jovens sejam protagonistas de suas vidas e não fiquem parados na varanda da história. Milhões de jovens voltaram para casa com um compromisso para o seu futuro: envolver-se, doar-se inteiramente pelo Evangelho e por Jesus Cristo.
Para reunir o compromisso dos jovens, o Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais lança uma iniciativa através do site Pope2You (www.pope2you.net).  Além de textos, os jovens poderão enviar fotos e vídeos partilhando com o mundo e o Papa Francisco o seu próprio compromisso de vida depois da JMJ Rio2013.
Para participar, os jovens podem entrar no site e fazer o envio direto. Também é possível através das redes sociais, como o Facebook e o Twitter, utilizando uma hashtag especial. Para os jovens de língua portuguesa, a hashtag é #MinhaVidaSerá. Em espanhol, será # MiVidaSerà, os jovens de língua inglesa utilizarão # MyLifeWillBe e os franceses, # MaVieSera.
SIR/Arquidiocese do Rio

Ricos em celeiros ou de coração?


Somos livres diante do dinheiro que temos ou que queremos adquirir? Essa é uma das questões que devemos responder, como cristãos, como discípulos de Cristo.

Por Raymond Gravel
No caminho para Jerusalém, por entre incidentes, encontros e palavras que pontuam a viagem, Lucas nos ensina como tornar-se discípulos do Jesus ressuscitado. No domingo passado, aprendemos a rezar; no próximo domingo, aprenderemos a vigilância nas responsabilidades que nos são confiadas; hoje, aprendemos como nos guardar das falsas seguranças, que consistem em acumular sempre mais bens materiais para si mesmos em vez de buscar partilhá-los com os outros. A questão que nos é colocada é a seguinte: queremos nos tornar ricos de celeiros ou de coração? Que mensagens podemos tirar da Palavra de Deus de hoje?

1. O dinheiro

Qual é a nossa atitude em relação ao dinheiro? Queremos sempre mais dinheiro para garantir o nosso futuro? Como nós o ganhamos? Somos livres diante do dinheiro que temos ou que queremos adquirir? Estas são as questões que devemos responder, como cristãos, como discípulos de Cristo.

O teólogo francês Michel Hubaut escreve: “Alguns arruínam sua saúde em horas extras para poder pagar uma segunda casa, outros se indispõem para sempre com sua própria família por brigas de herança ou perdem o sono e o apetite seguindo as flutuações das bolsas de valores. Uns e outros sacrificam tudo, descanso, equilíbrio pessoal, vida familiar, os simples prazeres do presente para se prepararem para o futuro! Aumentar sua fortuna, construir, ampliar, tornar-se rico, sempre mais rico... para desfrutar da sua aposentadoria! Assim, o homem é capaz de prever tudo, exceto o infarto e o acidente que, esta mesma noite, o levará brutalmente!”.

Este é o sentido do evangelho de hoje... Não que o dinheiro seja ruim, mas ele não deve ser o objetivo último da nossa vida. Há ricos que são livres em relação ao dinheiro e há pobres que são escravos dele. Podemos mesmo dizer que a riqueza material deve ser diretamente proporcional à riqueza do coração, para alcançar um melhor equilíbrio. Por quê? Lucas escreve: “Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens” (Lc 12, 15). E é verdade, pois sendo ricos ou pobres, todos morreremos! A parábola que Lucas é o único a contar quer ilustrar perfeitamente esta dura realidade.

2. Ricos em celeiros

No sistema capitalista que é o nosso, devemos ser vigilantes. Em nome do lucro, os dirigentes de empresas muitas vezes estão dispostos a sacrificar a segurança das pessoas para obter mais dinheiro. Temos o exemplo do que aconteceu há três semanas em Lac Mégantic [Referência ao acidente de trem ocorrido no começo de julho no centro desta cidade. O trem transportava derivados de petróleo. Com o descarrilamento, vários tanques pegaram fogo e explodiram, causando a morte de quase 50 pessoas e a destruição de cerca de 30 edifícios. (Nota do tradutor)]. Um desastre humano e ecológico ocorreu e pode ocorrer em outros lugares também, caso não fizermos nada para mudar a situação. Em nome do capital econômico e do lucro, as pessoas são capazes de destruir o planeta. É assim em todos os lugares onde o capitalismo é visto como um deus. Tomemos como exemplo as comunidades religiosas missionárias da América do Sul que há muitos anos denunciam a atitude das empresas mineradoras canadenses que exploram os pobres e que destroem o ambiente.

Recordemos também a última grande crise econômica nos Estados Unidos, onde pudemos ver a irresponsabilidade e a imoralidade de alguns dirigentes de empresas ou de bancos que se concederam bônus exorbitantes e injustificados, de sorte que o presidente Obama se viu obrigado a intervir para parar este flagelo. O afã do ganho espreita a todas e todos. Neste campo, o ser humano é capaz das piores injustiças e das piores atrocidades para poder enriquecer. O homem rico da parábola diz a si mesmo: “Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir outros maiores; e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’” (Lc 12, 18-19).

Por outro lado, pode acontecer o que os ricos não podem prever: “Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’” (Lc 12, 20). Isso não significa que não devemos ser previdentes em relação ao nosso futuro, mas que devemos amontoar, não egoisticamente para nós mesmos, mas em vista de compartilhar suas riquezas com os outros, sobretudo os mais pobres. Lucas acrescenta: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus”. Este é o mesmo sentido que encontramos na primeira leitura de hoje do livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” (Ecl 1, 2).

3. Ricos de coração

Como tornar-se rico de coração? Quando se sabe que a vida é efêmera, que acreditamos na vida após a morte, que temos a profunda convicção de que somos filhas e filhos de Deus por causa do Cristo da Páscoa e que já somos ressuscitados com ele, devemos desenvolver a riqueza do coração. Na segunda leitura de hoje, o autor da carta aos Colossenses escreve: “Se vocês foram ressuscitados com Cristo, procurem as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3, 1).

Sabendo disso, a nossa atitude e os nossos comportamentos em relação aos bens materiais não são mais os mesmos: “Façam morrer aquilo que em vocês pertence à terra: fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça de possuir, que é uma idolatria” (Cl 3, 5). Isso não significa que devemos viver como seres desencarnados, mas aspirar a mais espiritualidade, mais partilha, mais generosidade, mais justiça e mais dignidade. O autor de Colossenses acrescenta: “Não mintam uns aos outros. De fato, vocês foram despojados do homem velho e de suas ações, e se revestiram do homem novo que, através do conhecimento, vai se renovando à imagem do seu Criador” (Cl 3, 9-10). No fundo, a Palavra de hoje nos convida a nos tornarmos ricos de coração!
Para terminar, gostaria de partilhar com vocês esta bela reflexão do teólogo francês Marcel Metzger: “Renovar: Que maravilha esse transplante: para substituir um coração quase parado, um fígado cansado ou um rim desgastado, o cirurgião transplanta um outro em bom estado. Mas para isso foi preciso a morte de uma outra pessoa, um doador. No mistério cristão, vivemos uma realidade semelhante, que São Paulo exprime através de diferentes comparações: vocês foram enxertados, revestidos com uma nova humanidade, mergulhados na morte e na ressurreição. Porque foi preciso uma morte para permitir isto. No entanto, foi uma Ressurreição. O batismo e a confirmação operaram o transplante. Mas cada domingo, a Eucaristia renova nossos tecidos, irrigando nosso espírito pela Palavra de Deus, ao renovar o nosso ser pelo alimento divino”.
Se Cristo nos deu sua vida, é para que déssemos a nossa aos outros. Esta é a riqueza do coração!
Réflexions de Raymond Gravel

'Não julguem, e vocês não serão julgados'


Francisco leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem.

Jesus dá o exemplo: 'Não nos cansemos de ser boas pessoas'
Por José María Castillo
Se algo está ficando evidente em relação ao papa Francisco, cada dia mais evidente, é que se trata de um papa que acredita mais no Evangelho do que no papado, que leva mais a sério o que disse Jesus do que aquilo que as normas vaticanas impõem. Não pretendo discutir agora, nem sequer insinuar que haja, ou possa haver, contradições entre o Evangelho e o Vaticano. Refiro-me ao que é a “convicção determinante” na vida.
Essa convicção pode ser a bondade ou pode ser o poder. Existiram papas cuja convicção determinante foi a bondade, assim como papas cuja convicção determinante foi o poder. Pois bem, o mecanismo que faz funcionar a bondade é o respeito a todos, ao passo que o mecanismo que faz funcionar o poder é o julgamento. Isto ficou claro no princípio satânico que a serpente pronunciou, no mito do paraíso, quando disse para Eva: “Vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 5).
O que define Deus, segundo o demônio, é o poder que delimita o que está bem e o que está mal. E para isto, muitas vezes, os chamados “representantes de Deus” na terra se dedicaram. Por isso, sem dúvida, o papa Francisco se dedicou, em seu ainda curto pontificado, a atiçar fortemente os clérigos, começando por ele mesmo, pelos papas, os cardeais, os bispos, os padres, os freis... Os clérigos, disse Francisco, tem distanciado os jovens da Igreja. Uma Igreja que se dedicou em julgar a bons e maus. Uma Igreja que se dedicou a se “fazer de Deus”, a produzir a impressão de que tem a última palavra, como se fosse Deus.
Por isso, em poucos minutos, a resposta que Francisco deu a um jornalista no avião, em seu retorno do Rio de Janeiro para Roma, circulou o mundo: “Se uma pessoa gay busca ao Senhor, quem sou eu para julgá-la?”. Francisco tem consciência de sua responsabilidade. Contudo, também sabe que esta responsabilidade está limitada por sua condição humana. Uma condição e sua conseguinte limitação, que o Papa sempre leva consigo, por mais papa que seja. Jesus proibiu seus operários de arrancar a cizânia do mundo porque – tenham a tarefa que tiverem – podem se equivocar. E pode muito bem acontecer que ao invés de arrancarem a erva daninha, passem a vida por este mundo arrancando o trigo de Deus (Mt 13, 24-30. 36-43). Apenas os anjos de Deus, em definitivo, somente Deus pode saber e pode decidir o que está bom e o que está ruim.
E para terminar, um critério que o papa Francisco deixou muito claro: “Os pecados se perdoam, os crimes não”. O problema é que abundam os clérigos (com seus coroinhas) que, caso seja preciso, atiram-se na rua para pedir que, enquanto for possível, algumas coisas que o Catecismo diz sejam copiadas no Código Penal. Já é ruim pecar e ter que se confessar, entretanto, se acima disto, você precisa passar pelo juizado para acabar na prisão... não é isso pretender que o nacional-catolicismo retorne?
Santo Deus! Não nos cansemos de ser boas pessoas. Porque apenas a bondade – e sempre a bondade – tem força para mudar o mundo. E até para dar uma nova virada na história.
Teología Sin Censura, 30-07-2013.

Francisco começou a reforma pelo papado, diz cardeal Hummes


Papa Francisco, ao lado do cardeal Cláudio Hummes (à dir.)
Por José Manuel Vidal
Sentado ao lado de Bergoglio, o cardeal Claudio Hummes teve a inspiração de sussurrar-lhe, quando foi eleito papa, o já famoso “não se esqueça dos pobres”. Quatro meses depois do conclave, o prefeito emérito do Clero esteve na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, feliz e radiante. Pela Igreja, que “antes estava triste e, agora, feliz e com a cabeça erguida”. E por seu amigo Francisco, “a surpresa do Espírito” e o Papa que irá reformar a Cúria. Cumprimenta o padre Ángel, que conhece de ouvir falar, e diz que é “um admirador de sua obra”.

Confira a entrevista:

Está aqui “seu” papa, a quem você propôs o nome e disse-lhe “não se esqueça dos pobres”.

Sim. Estou muito feliz com a estadia do papa, e por tudo o que ele é e representa. Porque realmente o papa Francisco é um grande dom, um dom extraordinário que o Espírito Santo concede à Igreja. Seu nome já é todo um programa pastoral, porque ele será exatamente o papa que conduzirá a Igreja para este novo milênio. E fará isto de uma forma nova.

Francisco levará adiante uma “revolução tranquila”?

Acredito que sim, com uma forma nova de fazer as coisas, com a qual, principalmente, está apontando o essencial, o importante, aquilo para o qual devemos estar abertos. Particularmente, ele é um homem que pensa muito nas periferias, nos pobres. Carrega em seu coração os esquecidos.

Aqueles que precisam voltar a ser os preferidos?

Claro. Isso é o que ele está demonstrando, não apenas com palavras, mas muito mais ainda com gestos, com sua forma de ser e de fazer, de se relacionar com as pessoas. Para todos nós está sendo uma luz que nos indica novos caminhos.
Souberam escolher bem!
Acredito que o Espírito Santo conduziu o coração dos cardeais para escolher muito bem, e eu estou feliz. Acredito que foi uma coisa extraordinária e inesperada.

Pode-se dizer que começou uma primavera na Igreja?

Sim. Percebe-se que o povo católico está feliz novamente, está com a cabeça erguida de novo. Antes estava meio triste, preocupado em razão de todas as crises que estavam sendo descobertas no seio da Igreja. E hoje o povo está com esperança novamente. Claro que os problemas continuam aí e ainda precisam ser solucionados, mas o Papa já começou com as soluções, e o povo tem esperança de que os problemas serão corrigidos.

Você acredita que ele irá fazer a reforma da Cúria?

Sim, fará. E começou pela reforma da figura do Papa. Agora reformará a Cúria e, depois, também terá que enfrentar assuntos que tem a ver com toda a Igreja.

Será capaz de contagiar a sociedade civil desiludida, especialmente na Europa, com esta esperança?

Claro que sim, com toda segurança. Tanto assim, que na Europa já se ouve governantes que se perguntam: “Como pode ser que a Igreja em um dia e meio de conclave produza uma nova Igreja, e nós não consigamos fazer isso em nossos países e com nossos governos?”. Também se vê, de fato, uma apreciação mundial muito positiva do Papa, inclusive por parte dos governos.

Você temeu que pudesse ocorrer algo com o papa no Brasil?

Não, não. Sempre esteve bem protegido, especialmente pelo carinho do povo.

Os protestos não são contra o papa?

Não. E depois de tudo, acabarão sendo controlados. Às vezes, as forças de segurança contam com um pouco de falta de prática para lidar com este tipo de novas manifestações, mas pouco a pouco se nota que tudo vai sendo normalmente controlado. É claro que está havendo atos de vandalismo e de violência, mas estão sendo isolados e controlados.

O que você considera que ficará da passagem do papa pelo Rio de Janeiro? Qual foi a principal mensagem que ele deixou?

Sobretudo, a partir daqui, o Papa pensa em dar força à Igreja, especialmente na direção que o encontro de Aparecida, do qual ele participou, já havia destacado. Ele tem as orientações de Aparecida gravadas muito fortemente em seu interior. E, ao mesmo tempo, o que está nos apontando, com sua mensagem e com seu exemplo, é a forma como devemos viver Aparecida. E aí, em primeiro lugar, entram os pobres, a nova evangelização, e a proposta de uma Igreja mais aberta, mais misericordiosa, mais próxima do povo e de todas as pessoas. E, especialmente, daqueles que sofrem, dos pobres.

Foi proposto que o papa visitasse Casaldáliga. Você teria gostado de um gesto assim?

Com certeza, teria ficado encantado. Agradar-me-ia se ele o tivesse visitado, mas sei que era impossível.

Não podia?
Não. Não teve como fazer isto.
Por motivos de segurança?

Claro. Era irrealizável.

E Casaldáliga também não conseguiria vir ao Rio de Janeiro?

Não sei, mas talvez já não possa se deslocar numa viagem tão longa.
Religión Digital, 30-07-2013.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Seguir Jesus, desafio que exige compromisso (2ª parte)


Subida de Jesus e do seu Movimento para Jerusalém, um Caminho de libertação
1 – Introdução

“Jesus toma a firme decisão de partir para Jerusalém.” (Lc 9,51). “Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo caminho para Jerusalém.” (Lc 13,22). Esses dois versículos emolduram a 1ª grande parte da Caminhada de Jesus e do seu movimento para Jerusalém (Lc 9,51-13,21). Muitas narrativas compõem essa parte imprescindível do Evangelho de Lucas. Vamos interpretar essas narrativas, não todas, observando como elas podem nos inspirar no Seguimento de Jesus e no compromisso com seu Projeto. Veremos os apelos de Jesus, suas exigências e o compromisso necessário para se seguir o Profeta da Galileia.

1.1 – Não se instalar nem olhar para trás (Lc 9,51-62)

Seguir Jesus é o coração da vida cristã. Em três pequenas cenas, Jesus sacode a consciência dos discípulos. Não busca aumentar o número de seguidores e nem de “adoradores”, mas quer seguidores comprometidos que o acompanhe sem reservas. Seguir Jesus é viver a caminho, sem nos instalarmos no bem-estar e sem buscar religião como refúgio. Jesus desconcerta: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu vais anunciar o reino de Deus” (Lc 9,60). Há “mortos” ainda de pé sem viver o sentido mais profundo da vida. Estão alucinados pelo projeto do mercado endeusado. Não é possível seguir Jesus olhando para trás. Trabalhar no projeto do Pai exige dedicação total, confiança no Deus da vida, audácia para seguir os passos de Jesus e se comprometer com seu projeto.

Seguir Jesus exige uma dinâmica de permanente movimento. A sociedade capitalista nos leva a buscar segurança, o que é uma farsa. É hora de aprendermos a seguir Jesus de forma humilde e vulnerável, porém autêntica e real. Não se distrair com costumes e obrigações que provêm do passado, mas não ajudam a construir uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente.

Concordamos com o teólogo José Antônio Pagola ao dizer: “Em tempos de crise é grande a tentação de buscar segurança, voltar a posições fáceis e bater novamente às portas de uma religião que nos proteja de tantos problemas e conflitos”  (p. 166). Cuidado com a busca de segurança religiosa. Hoje devemos viver “com a atmosfera de Jesus” e não “ao sabor do vento que mais sopra”. Há muita gente afundando em “água benta” e busca individual por cura, consolo. Isso é auto-ajuda, é amuleto, não é seguimento de Jesus.

Seguir Jesus implica andar na contramão, remar contra a correnteza de tantos fundamentalismos e da idolatria do consumismo. Exige também rebeldia, coragem, audácia diante de costumes que entortam o queixo e de modas que aniquilam o infinito potencial humano existente em nós.

2.2 - Discípulos identificados com Jesus (Lc 10,1-12.17-20)

Ao longo da viagem para Jerusalém, as pessoas vão se definindo a favor ou contra o processo de libertação, aderindo a Jesus ou fazendo parte dos grupos que o rejeitam e o condenam à pena de morte. Todos são chamados a participar do projeto de libertação (Lc 10,1). O número 72 (setenta, segundo alguns manuscritos) é emblemático. Recorda os setenta anciãos de Israel (cf. Nm 11,16-30). Lembra, ainda, a tábua das nações de Gênesis 10. O apelo a participar no anúncio do Reino é feito a todos, sem exceção.

Qual a identidade dos discípulos de Jesus? A partir de Lc 10,2-12 percebemos sete características que identificam os discípulos e discípulas de Jesus:

1. são pessoas que rezam/oram porque percebem a urgência do projeto de Deus (Lc 10,2);

2. são pessoas que anunciam o Reino em uma sociedade de classes com interesses antagônicos e não empregam os métodos violentos da classe dominante que vai matar e perseguir seus discípulos. Anunciam o Reino de Deus despojados do poder e se regendo pela lógica do amor (Lc 10,3);

3. são pobres (Lc 10,4a) e a mensagem é urgente (Lc 10,4b);

4. são construtores da paz, que é a plenitude dos bens da nova sociedade (Lc 10,5-6);

5. são pessoas que não visam a  lucro (Lc 10,7);

6. são precursores na missão, são pessoas que se preocupam em defender os injustiçados (Lc 10,8-9);

7. são pessoas que não fazem média com a sociedade que rejeita o projeto de Deus (Lc 10,10-11).

Importante observar que há outro envio dos discípulos no Evangelho de Lucas, em Lc 22,35-38, que trata da hora do combate, da luta. No primeiro envio, Jesus indicou aos discípulos que fossem despojados e desarmados. Assim deve ser todo início de missão: conviver, estabelecer amizades, cativar, assumir a cultura do outro, tornar-se um irmão entre os irmãos para que seja reconhecido como “um dos nossos”, estabelecer proximidade, como nos ensina o papa Francisco. Mas, durante a evolução da missão, chega a hora em que não basta esbanjar ternura, graciosidade e solidariedade. È preciso partir para a luta, pois as injustiças precisam ser denunciadas. Ao tomar partido e “dar nomes aos bois”, irrompem-se as divisões e desigualdades existentes na realidade. Os incomodados tendem naturalmente a querer calar quem os está incomodando. É a hora das perseguições que exigem resistência. Por isso “pegar bolsa e sacola, uma espada – duas no máximo.” (Lc 22,36-38).

Resistir não é violência, é legítima defesa. Diante de qualquer tirania e de um Estado violentador, vassalo do sistema capitalista, que sempre tritura vidas e pratica injustiças, é dever das pessoas cristãs resistirem contras as opressões perpetradas contra os empobrecidos, os preferidos de Jesus. Lucas, em Lc 22,35-38, sugere desobediência civil – econômica, política e religiosa. Em uma sociedade desigual, esse é “um outro caminho” a ser seguido por nós, discípulos e discípulas de Jesus, o rebelde de Nazaré.

1.3 - Sejam universais e ecumênicos!

A narração de Lucas, no evangelho, está cheia de prefigurações de uma futura abertura para reconhecer que o Reino de Deus está também no meio dos não judeus, o que se confirma em Atos dos Apóstolos com a abertura “aos de fora”. Já no início do evangelho aparece o tema do universalismo, ao dizer que Jesus será “luz para as nações” (Lc 2,30-32). Ainda antes da missão pública de Jesus já se assinala que “toda carne verá a salvação...” (Lc 3,6), anunciando que a ação de Jesus virá trazer a salvação de Deus, superará barreiras, transporá fronteiras, romperá limites. Como exemplo do universalismo e do ecumenismo defendido por Lucas podemos citar a inegável prioridade que Lucas dá aos samaritanos.

No caminho de subida para Jerusalém, Jesus cura dez leprosos (Lc 17,11-19). Nesse relato, Lucas faz questão de dizer que o único que voltou dando graças a Deus era um samaritano (Lc 17,16), um estrangeiro (Lc 17,18), colocado como paradigma a ser seguido pelos discípulos, porque apresentou fé crítica e criativa, nascida da esperança (Lc 17,12-13), foi dócil à Palavra de Jesus (Lc 17,14), revelou gratidão (Lc 17,16). Com isso, ele não só recebe a cura, mas é salvo.

1.4 - Seja compassivo e misericordioso! Tenha coração aberto e mãos solidárias! (L 10,25-37)

Uma das colunas mestras da teologia de Lucas é a compaixão-misericórdia, a bondade, o amor de Jesus pelos pecadores, marginalizados, pobres e os excluídos (Lc 19,10), explicitados no discurso programático na sinagoga em Nazaré (Lc 4,14-27). No evangelho de Lucas, compaixão e misericórdia verificam-se em ser amigo de pecadores e publicanos (Lc 7,34), na solidariedade com a viúva de Naim (Lc 7,11-17), nas parábolas da misericórdia (Lc 15,4-7.8-10.11-32), no episódio-parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37), na experiência de Zaqueu (Lc 19,1-10) e no convite para ser misericordioso (Lc 6,36). E mais: ternura, cuidado, compaixão e misericórdia estão disseminadas em todas as páginas do evangelho de Lucas como um tempero que permeia, penetra e perpassa todo o ensinamento e práxis de Jesus de Nazaré.

Gilvander Moreira é frei e padre carmelita. Mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), do Serviço de Animação Bíblica (SAB) e Via Campesina. Autor de alguns livros: Compaixão-misericórdia, uma espiritualidade que humaniza (Ed. Paulinas, 1996), Lucas e Atos, uma teologia da História (Ed. Paulinas, 2004) e co-autores de vários livros do CEBI. 

Jovens: protagonistas da História


Para a professora Mariza Rios, JMJ e recentes manifestações comprovam o potencial da juventude brasileira.

Jovens na JMJ: chama da mudança já estava presente
Por Alexandre Vaz
Repórter Dom Total
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), realizada na última semana no Rio de Janeiro, deixou uma lembrança positiva na mente de todos os católicos que estiveram presentes ou acompanharam pelos meios de comunicação os sete dias de encontro. Além de ficar marcada como a primeira viagem do papa Francisco, pontífice que vem propondo novos rumos para a Igreja Católica, a jornada serviu de palco para as manifestações de fé e consciência da juventude brasileira, que se uniu a jovens católicos de diversas partes do mundo para refletir sobre os rumos da sociedade e demonstrar que a fé e a solidariedade são a saída para os diversos dilemas impostos pelo mundo contemporâneo.

Segundo a coordenadora do Núcleo de Apoio ao Ensino Personalizado (NAEP) e Apoio ao Trabalho de Conclusão de Curso da Escola Superior Dom Helder Câmara, professora Mariza Rios, a participação dos jovens brasileiros na JMJ e nas recentes manifestações nas capitais do país refuta a tese de que a juventude é alienada e distante das questões sociais. Segundo Mariza Rios, o engajamento sempre existiu, porém era visto com descrédito pelos demais setores da sociedade.

“Em minha opinião, os jovens não estão se tornando mais conscientes, nós é que, somente agora, passamos a observar o crescimento do potencial da juventude. É uma planta que vem sendo cultivada por muita gente, ao longo da historia nacional, mas o descrédito depositado nessa camada da população dá-nos a impressão de que tudo começou agora”, ressalta.

Para a professora, mesmo equivocadamente associada ao consumo, à futilidade e ao apego ao supérfluo, a juventude vem demonstrando que ainda pode ser a janela para uma nova perspectiva de futuro, como bem disse o papa Francisco. Para o pontífice, "o jovem que não protesta, não o agrada".
Segundo Mariza Rios, nas palavras e gestos de Francisco, os jovens encontram o estímulo para que tenham fé e assumam seu lugar como atores da História. “O pontífice encoraja os jovens a serem protagonistas das lutas sociais. Dessa forma, rejuvenesce a Igreja de Cristo em pensamento e atitude. Sem obras, a fé carece de vida. Faz, com isso, a unidade entre o sagrado, a qualidade da vida e a justiça social. Nessa paisagem santa, a violência não tem vez, a corrupção representa a obra do mal e a luta desenfreada pelo poder não encontra lugar”, finaliza.
Redação Dom Total