Há
50 anos começava o Concílio Vaticano II, um evento que mudaria a face da
Igreja Católica. Em 11 de outubro de 1962, o papa João XXIII convocava o
Concílio Vaticano II, considerado hoje o acontecimento mais importante da
Igreja no século XX e descrito pelo próprio pontífice como “um novo
Pentecostes”. Uma das instituições mais poderosas e influentes do mundo, que
tinha dominado o Ocidente nos séculos anteriores, agora se encaminhava para a
modernidade.
O
Bem-Aventurado João XXIII apresentou a finalidade principal do Concílio: que o
depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais
eficaz. Por isso, o objetivo principal deste Concílio não é a discussão sobre
este ou aquele tema doutrinal. É necessário que esta doutrina certa e imutável,
que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de forma a
responder às exigências do nosso tempo.
O
Concilio Vaticano II se apresenta, ao mesmo tempo, como o resultado de cerca de
cinquenta anos de pesquisas pastorais e teológicas e como uma ruptura em
relação à Igreja originária do Concílio de Trento. Ao concretizar a
manifestação da Igreja num mundo em plena evolução, o Concílio despertou
grandes esperanças. O mal-entendido entre a Igreja e o mundo parecia dissipado.
Contudo, outras dificuldades surgiram. O Concílio liberou a palavra e uma crise
geral da civilização não podia deixar de ter consequências para a própria
Igreja.
Em 28 de outubro de
1958, sucedia a Pio XII o cardeal Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII.
Aos setenta e sete anos e de origem camponesa, ele tivera uma carreira
diplomática variada. Era patriarca de Veneza desde 1953 e tinha a reputação de
um bravo homem. De suas estadias em vários países, entre os quais a França,
guardou a lição de que o mundo evoluíra muito e de que a Igreja estava ausente
de diversos setores da vida. João XXIII, no espírito do Evangelho, desejava
simplificar as coisas complicadas. Ele adota um novo estilo pontifical.
Primeiro papa a sair do Vaticano desde 1870, ele visita a prisão de Roma,
partindo em peregrinação para Loreto e para Assis. Mas, em outros aspectos,
permanece inteiramente tradicional.
No dia 25 de janeiro
de 1959, João XXIII anunciava sua tríplice intenção de reunir um sínodo para a
diocese de Roma, de reformar o direto canônico e de reunir um Concílio para
Igreja universal.
Sem ter ideias muito
precisas sobre o conteúdo do concílio, João XXIII lhe atribui dois objetivos
bastante amplos: Uma adaptação da Igreja e do apostolado a um mundo em plena
transformação e o retorno à unidade dos cristãos, que o papa parece planejar
para prazos muito curtos, um pouco como a parusia para os primeiros cristãos. Para
a Igreja, trata-se menos de lutar contra adversários do que de encontrar um
modo de expressão para o mundo no qual vive e que a ignora. É preciso sacudir a
poeira imperial que recobre a Igreja.
Em abril de 1963, a
encíclica de João XXIII, Pacem in terris,
tem uma grande repercussão, porque o papa se dirige a todos os homens de boa
vontade e não mais unicamente aos cristãos. Pouco depois, o mundo inteiro segue
com emoção a lenta agonia de João XXIII, que morre no dia 3 de junho de 1963.
No dia 21 de junho, é eleito papa o cardeal Montini, que assume o nome de Paulo
VI. Arcebispo de Milão desde 1954, ele fizera outrora sua carreira no Vaticano
na secretaria de Estado. Bastante tímido, de inteligência brilhante, grande
trabalhador, místico, ele contrasta com João XXIII e dá uma impressão de
fragilidade. Paulo VI decide imediatamente dar prosseguimento ao Concílio.
A segunda sessão
(outono de 1963) aborda diversos temas, colegialidade episcopal, ecumenismo e
liberdade religiosa, e promulga a constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a
liturgia, e o decreto Inter mirifica, sobre as comunicações sociais.
No decorrer da
terceira sessão (outono de 1964), os padres se confrontam acerca da liberdade
religiosa. Vários textos são votados e promulgados: sobre a Igreja (Lumen
gentium), o Ecumenismo, as Igrejas Orientais. O Concílio propõe a constituição
de um sínodo episcopal que o papa consultará periodicamente.
Na quarta e última
sessão (setembro-dezembro de 1965) desembocava no voto e na promulgação de
todos os textos discutidos anteriormente. No dia 4 de outubro, Paulo VI fora a
Nova Iorque, na tribuna da ONU, na qual sua exortação, “Nunca mais a guerra”,
causou uma forte impressão. No dia 4 de dezembro, numa celebração comum, a
primeira do tipo para um papa, o Concílio se despede dos observadores
não-católicos. No dia 7 de dezembro, em São Pedro de Roma, Paulo VI e o
patriarca Atenágoras suspendem as excomunhões mútuas pronunciadas em 1054 entre
Roma e Constantinopla. Esse gesto constitui uma etapa importante no caminho da
unidade. No dia 8 de dezembro de 1965 ocorre o encerramento solene do Concílio.
Tudo se acaba numa grande esperança.
De maneira geral, o
Concílio pretendeu ser um Concílio pastoral destinado a falar aos homens desta
época. Embora profundamente doutrinal, o Concílio não propôs definições nem
condenações.
Com uma teologia que
volta às suas fontes, a Constituição sobre a Revelação, Dei Verbum, insiste na
unidade da revelação, tradição viva na qual não se devem distinguir
artificialmente uma Escritura e uma Tradição oral. A revelação não está
cristalizada num texto, mas se conserva no povo crente que nela descobre sem
cessar as novas riquezas. O retorno à Palavra de Deus permite uma
revalorização, na Igreja Católica, de aspectos tradicionais um tanto esquecidos
em função das polêmicas antiprotestantes ou antiortodoxas, o sacerdócio
universal dos fiéis, a Igreja como povo de Deus mais que como órgão jurídico,
assim como a colegialidade episcopal. Com este último termo designa-se o fato
de que, em torno do bispo de Roma, os bispos assumem a responsabilidade
coletiva pelo povo cristão.
A abertura para os
outros cristãos e para outras religiões e o decreto sobre o Ecumenismo,
Unitatio redintegratio, pede que as diferentes confissões cristãs considerem
inicialmente aquilo que têm em comum, Cristo e o Evangelho. Não se devem acusar
os cristãos não-católicos do pecado de cisma. Mas que os católicos reconheçam
também suas diferenças e suas responsabilidades históricas nos cismas, como na
declaração do dia 7 de dezembro de 1965 de Paulo VI e de Atenágoras - um dos
textos mais novos do Concílios. Nele, o Concílio se esforça por descobrir a
parte do conhecimento de Deus mantida em todas as religiões, desde aquelas que
são designadas como primitivas até as herdeiras da revelação monoteísta, o
judaísmo e o islamismo.
Baseado
nisto, o Concílio Vaticano II não quis colocar a fé como tema de um documento
específico. E, no entanto, o Concílio esteve inteiramente animado pela
consciência e pelo desejo de ter que, por assim dizer, imergir mais uma vez no
mistério cristão, para poder propô-lo novamente e eficazmente para o homem
contemporâneo. Neste sentido, o Servo de Deus Paulo VI, dois anos depois da
conclusão do Concílio, se expressava usando estas palavras: “Se o Concílio não
trata expressamente da fé, fala da fé a cada página, reconhece o seu caráter vital
e sobrenatural, pressupõe-na íntegra e forte, e estrutura as suas doutrinas
tendo a fé por alicerce. Bastaria recordar afirmações do Concílio (...) para
dar-se conta da importância fundamental que o Concílio, em consonância com a
tradição doutrinal da Igreja, atribui à fé, a verdadeira fé, que tem a Cristo
por fonte e o Magistério da Igreja como canal” (Catequese na Audiência
Geral de 8 de março de 1967).
Carlos
Queiroz