
Papa entre os fieis: pastor com 'o cheiro das ovelhas'.
Por Andrea Tornielli
Homilia após homilia, catequese após catequese, durante os últimos
oito meses, o papa Francisco tem traçado o perfil do verdadeiro pastor
das almas. Durante a audiência geral desse domingo (24), na Praça São
Pedro, ele falou do sacramento da confissão, recordando que Jesus deu
aos apóstolos “o poder de perdoar os pecados”.
A Igreja, acrescentou o papa, "não é dona do poder das chaves, mas serva
do ministério da misericórdia e se alegra toda vez que pode oferecer
este dom divino". Sente-se, aqui, um eco do convite feito no último dia
21 de abril, quando Francisco falou com os sacerdotes da diocese de
Roma, antes de ordená-los: "Sejam pastores e não funcionários.
Mediadores e não intermediários".
Ao refletir sobre a figura do confessor, Bergoglio acrescentou em sua
catequese: "O perdão de Deus que nos é dado na Igreja, é transmitido
através do ministério de um irmão nosso, o sacerdote; que também é um
homem que, como nós, necessita da misericórdia, e que se torna realmente
instrumento da misericórdia, oferecendo-nos o amor sem limites de Deus
Pai. Os sacerdotes também devem se confessar, inclusive, os bispos:
todos somos pecadores. Inclusive, o papa que se confessa a cada quinze
dias, por que o Papa também é um pecador!".
“O serviço que o sacerdote presta como ministro, por parte de Deus, para
perdoar os pecados, é muito delicado – continuou Francisco –, é um
serviço muito delicado e requer que seu coração esteja em paz, que o
sacerdote tenha o coração em paz, que não maltrate os fiéis, mas que
seja manso, benevolente e misericordioso; que saiba semear esperança nos
corações e, sobretudo, que seja consciente de que o irmão ou a irmã que
se aproxima do sacramento da Reconciliação busca o perdão, e o faz da
mesma maneira que tantas pessoas se aproximavam de Jesus, para que as
curasse. O sacerdote que não tem esta disposição de ânimo, é melhor que,
até para Jesus, não administre este Sacramento. Os fiéis penitentes têm
o dever, não? Têm o direito. Nós temos o direito, todos os fiéis, de
encontrar nos sacerdotes os servidores do perdão de Deus".
"Um sacerdote apaixonado – disse Francisco no último dia 16 de
setembro, durante o encontro com o clero romano – deve sempre se lembrar
do primeiro amor, o de Jesus, voltar a esta fidelidade que permanece
sempre e que nos espera. Para mim, esse é o ponto-chave de um sacerdote
apaixonado: que tenha a capacidade de voltar para a memória do primeiro
amor. Uma Igreja que perde a memória é uma Igreja eletrônica: não tem
vida. Há que ter cuidado com os sacerdotes “rigorosos” e “laxistas”. O
sacerdote misericordioso – afirmou – é o que diz a verdade, mas
acrescenta: ‘Não fique espantado, o Deus bom nos espera. Caminhemos
juntos’. E devemos ter isto sempre presente: acompanhar. Ser
companheiros do caminho. A conversão sempre se faz assim, pelo caminho,
não no laboratório”.
Durante a recente visita a Assis, ao dirigir-se ao clero, Francisco
pediu aos párocos que memorizassem não apenas os nomes de seus
paroquianos, mas “inclusive os de seus cachorros”, dos animais
domésticos. Uma maneira para dizer que o pastor deve estar perto de seu
rebanho.
"Isto é o que os peço: que sejam pastores com ´o cheiro das ovelhas´,
pastores em meio ao próprio rebanho, e pescadores de homens", disse
Francisco, em 28 de março, durante a homilia da missa crismal: "Nossa
gente agradece o evangelho pregado com unção, agradece quando o
evangelho que pregamos chega à sua vida cotidiana, quando desce como o
óleo de Aaron até as bordas da realidade, quando ilumina as situações
limites, ´as periferias´ onde o povo fiel está mais exposto à invasão
dos que quererem roubar a sua fé. Agradecem-nos porque sentem que
rezamos com as coisas da sua vida cotidiana, com suas alegrias e
tristezas, com suas angústias e suas esperanças. E quando sente o
perfume do Ungido, de Cristo, que chega através de nós, animam-se em
confiar a nós tudo o que desejam que chegue ao Senhor: ‘Reze por mim,
padre, que tenho este problema...´. ´Abençoa-me, padre´ e ´reze por mim´
são os sinais de que a unção chegou à margem do manto, porque
converte-se em súplica".
Os sacerdotes, ainda que celibatários, devem ser pais. O "desejo de
paternidade" está inscrito nas fibras mais profundas de um homem,
explicou o papa na homilia de Santa Marta, do último dia 26 de junho.
“Quando um homem não tem este desejo, algo falta neste homem. Algo não
funciona. Todos nós, para ser, para nos tornarmos plenos, para sermos
maduros, devemos sentir a alegria da paternidade: inclusive os
celibatários. A paternidade é dar vida aos demais, dar vida, dar vida,
... Para nós será a paternidade pastoral, a paternidade espiritual: mas é
dar vida, tornarmo-nos pais”. “Um pai – continuou – que sabe o que
significa defender os filhos. E esta é uma graça que nós – os sacerdotes
– devemos pedir: sermos pais, sermos pais. A graça da paternidade, da
paternidade sacerdotal, da paternidade espiritual”.
Falando sobre as dificuldades do sacerdote, durante o encontro com o
clero romano de setembro, o papa explicou: "Quando um sacerdote está em
contato com o povo, cansa-se. Quando um sacerdote não está em contato
com seu povo, cansa-se, mas de forma negativa e para poder dormir deve
tomar uns comprimidos, não é? Ao contrário, aquele que está em contato
com seu povo (porque o povo verdadeiramente tem muitas exigências de
Deus, não?), esse se cansa de verdade, não é? E não necessita de
comprimidos".
A proposta de um modelo de pastor que não crie nenhuma distância, que
não viva separado, que não se considere o "administrador" dos bens da
graça, que não tenha a preocupação de "regular" a fé das pessoas, mas
sim de facilitá-la, que não se ocupe excessivamente das questões de
“moda eclesiástica” e não se preocupe demasiadamente com sua imagem.
Vive unido com Deus e, por este motivo, completamente dedicado aos
serviços que foram encomendados pelos fiéis. Deriva desta proximidade,
deste compartilhar, a indicação sobre a sobriedade que o Papa pronunciou
para os jovens seminaristas e religiosos, no dia 6 de julho deste ano:
"Me dói quando vejo uma freira ou um sacerdote com um carro do último
modelo. Não se pode ir com carros caros. O carro é necessário para fazer
muitos trabalhos, mas queiram um simples. Se querem um bonito, pensem
nas crianças que morrem de fome".
As características do sacerdote apontadas por Francisco também aparecem
no perfil do bispo que foi traçado nestes meses. No vídeo-mensagem
enviada à Cidade do México, para o Congresso sobre a Evangelização na
América, o Papa falou do bispo como “pastor que conhece suas ovelhas
pelo nome, guia-as com proximidade, com ternura, com paciência,
manifestando efetivamente a maternidade da Igreja e a misericórdia de
Deus”. É o verdadeiro pastor, explicou, não tem a atitude “do príncipe
ou do mero funcionário” que se preocupa principalmente pela disciplina,
pelas regras, pelos mecanismos organizacionais; “e isto sempre leva a
uma pastoral distante das pessoas, incapaz de favorecer e de obter o
encontro com Cristo e o encontro com os irmãos”.
"O povo de Deus que lhe foi confiado – continuou – necessita que o bispo
vele por ele cuidando, sobretudo, para que o mantenha unido e promova a
esperança nos corações". Francisco também falou sobre a importância
para os bispos da formação de sacerdotes que sejam capazes de estar
próximos, "que saibam transformar os corações das pessoas, que possam
caminhar com eles, entrarem em diálogo com suas esperanças e com seus
temores".
Em diferentes ocasiões, Bergoglio fez alusão à doença do carreirismo:
"Nós, os pastores – disse no dia 19 de setembro aos novos bispos – não
sejamos homens com a "psicologia de príncipe", homens ambiciosos, que
são maridos de uma Igreja, enquanto esperam outra mais bonita, mais
importante ou mais rica. Estejam muito atentos para não cair no espírito
do carreirismo!”. "Evitem o escândalo - acrescentou - de ser ´bispo de
aeroporto!´ Sejam pastores acolhedores, que caminham com seu povo".
Outro dos males que afligem a Igreja, e que às vezes vai ao encontro do
carreirismo, é o clericalismo, uma “tentação”, como foi definido por
Francisco na vídeo-mensagem enviada ao México, que causa muitos danos à
Igreja. "A doença típica da Igreja volta-se contra si mesma – escreveu o
papa para os bispos argentinos, no último dia 18 de abril – é a uma
autorreferência: olhar-se no espelho, curvar-se sobre si mesma - como
aquela mulher do Evangelho. É uma espécie de narcisismo que nos conduz
ao mundanismo espiritual e ao clericalismo sofisticado".
Carreirismo e clericalismo, enfermidade que às vezes se transmite,
inclusive, aos fiéis leigos, que podem chegar a desejar ser
"clericalizados", são cadeias que impedem de sair, enfrentar os desafios
da evangelização no mar aberto, para a qual o papa chamou.
Vatican Insider, 21-11-2013.