
Em seu último livro,
Souci de soi, conscience du monde [Cuidado de si, consciência do mundo], o sociólogo
Raphaël Lioger defende
que a nossa época é o cenário de uma transformação radical do
religioso, na qual o sagrado invade todas as esferas da vida social.
A reportagem é de
Antoine Dhulster, publicada na revista
Témoignage Chrétien, 23-06-2012. A tradução é de
Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Em seu último livro, você explica
que a nossa época assiste ao surgimento de uma nova religião: o
indivíduo-globalismo. Você não vai um pouco longe demais ao defini-la
como uma religião?Tudo depende do que se entende por
religião. Para mim, é o âmbito das atividades humanas em que se
desenvolvem as instituições especializadas na produção e na difusão de
mitos. Os mitos são os grandes relatos implícitos, impensados, aos quais
todos nós aderimos. Eles estruturam a nossa existência e lhe dão um
sentido. E isso, muito além da esfera "religiosa" em sentido estrito.
Por exemplo, no mundo cristão, a crença não se detém nas portas das
igrejas. Ela está difundida em toda a sociedade, até mesmo nas
atividades cotidianas. Eu acredito que o nosso mundo desenvolvido, ou
pós-industrial, está submetido a uma nova tensão mítica, a um novo
grande relato. Nesse novo marco, o indivíduo busca a sua realização, a
resposta às suas perguntas metafísicas, em um processo que inclui
preocupações globais: a ecologia, a paz mundial etc. A tensão entre
essas duas dimensões – individual e global – é o que chamo
indivíduo-globalismo.
Em que se baseia essa espiritualidade?Em
primeiro lugar, em uma visão moderna do ser humano, radicalmente
diferente daquela que dominou durante séculos. Na antiguidade grega,
pensava-se o ser humano como uma pessoa que adquiria sua dignidade na
participação na vida da polis. Depois, dependendo dos contextos e das
épocas, na vida da tribo, da família e da nação. Na época moderna, nasce
o indivíduo. O conceito de indivíduo é a ideia segundo a qual o ser
humano se volta à sua subjetividade, que é abissal, e que se torna, ela
mesma, uma espécie de transcendência. Segundo elemento: a nossa visão de
mundo. Também a partir da época moderna, se desenvolve uma visão do
nosso universo como um conjunto infinito.
Até esse momento, a própria ideia de infinito era muito negativa. Os
gregos pensavam o cosmos como algo perfeito, porque finito, determinado.
Em pensadores como
Kant, no fim do século XVIII, vê-se
aparecer, portanto, essa dupla noção de indivíduo, que conquista a sua
subjetividade em um mundo que se pensa já infinito. A lei moral está
nele, como subjetividade abissal. E, por outro lado, há o universo
infinito, o céu estrelado acima dele. No século XIX, particularmente com
o movimento romântico, esse esquema de pensamento supera o quadro da
razão e conquista o campo da emoção. Depois, alcança os nossos modos de
viver. Antes marginalmente, em comunidades como a de
Monte Verità, na
Suíça, depois de forma espetacular com a
Nova Era nos anos 1960 e com as nossas preocupações místicas e ecológicas hoje.
Eu tento mostrar que há uma continuidade entre esse longo processo
intelectual – a subjetividade do sujeito e o mundo pensado como infinito
– e o nosso modo de viver atual. Os mesmos elementos são mobilizados,
na busca do bem-estar pessoal nos atos mais cotidianos e, ao mesmo
tempo, com a preocupação de um equilíbrio global. Se alguém tivesse
hibernando nos anos 1970 e se acordasse agora, constataria que os
hippies tomaram o poder. Muitos pensadores analisaram essa reviravolta
como a da pós-modernidade. Pessoalmente, defendo a ideia de que a
pós-modernidade é a modernidade em atos.
Como imaginar a relação entre o indivíduo-globalismo e as religiões institucionais?Há
uma coexistência entre esse esquema e as grandes religiões. Estas
continuam existindo porque o velho mundo, que as criou, ainda existe.
Mas estamos em um período de transição. E, a meu ver, existem três
possibilidades para as grandes religiões: ou resistem agarrando-se ao
passado e, nesse caso, haverá a fuga dos fiéis; ou fazem compromissos
com a modernidade e se mantêm vivas; ou antecipam as transformações
futuras e, nesse caso, aumentarão seus fiéis.
Concretamente: no cristianismo, uma parte do indivíduo-globalismo, na
sua versão emocional, se manifesta nos movimentos evangélicos, que
veiculam uma efervescência coletiva e fazem com que os fiéis acreditem
que poderão mudar as suas vidas. A Igreja Católica resistiu a essa
mudança trazida pelos evangélicos. Resultado: perdeu todos os ciganos
franceses, ou se tornaram praticamente neoevangélicos, embora
continuando a praticar o culto de
Maria, que
normalmente é incompatível com o culto protestante, mas isso não é
problema para eles. Em um certo ponto, a Igreja começou a compreender
esse movimento e "enquadrou" a renovação carismática. Assim, ela passou
para a segunda atitude, a da negociação.
Então, a Igreja Católica ainda tem uma carta na manga com relação à modernidade?Sim,
de forma evidente. O indivíduo-globalismo é o produto da modernidade.
Mas também devemos lembrar que a modernidade é o produto da evolução
dialética do cristianismo, do qual a Igreja Católica participa há 2.000
anos. A relação com o indivíduo pensado como sagrado está presente
cristianismo mediante a ideia de encarnação. Lembremos ainda que a
filosofia iluminista é um desenvolvimento da teologia cristã em um certo
nível. Ora, é justamente a filosofia iluminista que faz nascer o
indivíduo-globalismo. Portanto, a Igreja Católica pode se recompor
compativelmente com esse novo mito. E ela já faz isso, através das suas
redes e das suas ONGs que levam a voz católica ao mundo, à
ONU,
às instituições internacionais... Mas essa mudança de paradigma
pressupõe o abandono de uma parte da sua dogmática, que a mantém nos
velhos esquemas.
A Igreja poderia abandonar a sua dogmática? Você acredita nisso?Pode
haver uma resistência muito forte, mas a história nos mostra que a
necessidade faz a norma. Por enquanto, a Igreja não está à beira do
abismo, mas, quando chegar ao ponto em que não poderá nem mesmo manter o
Vaticano, acho que ela aceitará reinterpretar o seu dogma.
Você certamente percebeu que a tendência atual, ao contrário, é o do retorno à Tradição...Certamente,
é um reflexo clássico, provocado pelo medo. Quando temos medo, nos
retraímos. Falando em termos de imagem, constroem-se barragens para se
proteger das correntes dominantes. Mas, ao fazer isso, proibimo-nos de
pensar ou de compreender essas correntes, fixamos a atenção sobre as
barragens artificiais. É o mesmo processo do debate francês sobre a
identidade. Se fazemos um debate sobre a identidade, significa que a
identidade não é mais evidente. Naturalmente, a identidade é algo
impensável. Se eu preciso torná-la reflexivo, quer dizer que ela não
existe mais. É a mesma coisa para a religião. Quando um indivíduo quer
se pensar tradicional, ou integralista, constata implicitamente que a
sua tradição morreu.
Que fé, que conteúdo você vê para essa nova espiritualidade que anuncia?As
religiões se recompõem em torno a uma noção central, a energia, que é,
ao mesmo tempo, salvadora e pessoal. Daí a noção de conexão, de
conectividade entre o individual e o global, entre o indivíduo e a
natureza. Nesse contexto, o próprio dogma católico é reinterpretado com
essa ideia de energia. É preciso pensá-lo perto do imaginário da ioga,
da espiritualidade oriental.
Então a sua tese é a de uma
releitura da tradição cristã em uma versão sincrética influenciada pelas
outras formas de espiritualidade?Sim, e isso terá como
resultado tornar-nos bipolares. Interiorizaremos, cada um de nós ao
nosso nível, as culturas diferentes à nossa. Por exemplo, incensaremos o
taoísmo ou o budismo, porque se pressupõe que sejam próximos à
natureza. E, simetricamente, rejeitaremos o catolicismo... mas só em um
primeiro momento, porque certos aspectos do catolicismo permitem pensar a
ecologia, a união com a natureza, o equilíbrio global. É neste jogo de
confrontos que o rolo compressor indivíduo-global avança e aproxima as
religiões, focando-se na sua estética, mas removendo-lhes o seu núcleo
dogmático. As religiões tornam-se pouco a pouco intercambiáveis. Na
prática, vê-se o aparecimento de híbridos: faz-se
ioga cabalística, gi gong cristão ou meditação zen recebendo a comunhão...
Mas,
na prática, todos esses comportamentos continuam sendo individuais,
muito limitados. Que relação existe com a prática religiosa da maioria?Isso
é muito menos limitado do que se pensa. No Ocidente, essa
espiritualidade é levada adiante pela classe média. Falando em termos
midiáticos, os
"bobo" [neologismo criado pelo jornalista norte-americano
David Brooks a
partir da contração de "burguês-boêmio", para se referir a uma pessoa
de um certo nível de vida com um estilo de vida pouco convencional]. Mas
não só. Poderiam ser acrescentados os católicos de esquerda, muito
interessados no diálogo inter-religioso ou o âmbito humanitário,
processos indiscutivelmente indivíduo-globais.
As outras partes da população aderem ao mito indivíduo-global, mas
não podem se permitir isso completamente, eu poderia dizer. O
indivíduo-globalismo é a cor dominante do quadro, mas uma parte da
população o percebe como degradado. Nem todos vivem o conhecimento de si
mesmo, a realização pessoal, mas todos aspiram a isso. O único que
chega a viver essa busca no seu cotidiano é o
"bobo" no seu
trabalho. Mas a busca, no entanto, se refere a todos. Assim, os outros
vão viver os mesmos problemas... no seu tempo livre, fazendo estágios de
desenvolvimento pessoal, viagens espirituais, consumindo produtos
orgânicos etc.
E em escala planetária?Encontramos
a mesma assimetria. Aqueles que são objeto dos novos cultos (os povos
tradicionais, por excelência) sabem que fazem parte do cenário da
experiência espiritual que os cidadãos das sociedades pós-industriais
buscam viver. Eles mesmos são obrigados a imaginar o que aqueles
turistas esperam esteticamente para fazer com que vivam uma experiência.
Senão, perdem a força de atração econômica. Portanto, há uma forte
pressão ideológica, em que aqueles que jogam esse jogo de papéis (o que
eu chamo de "hiperbeduínos" ou "hiperzulus") acabam se afastando do
"núcleo" da sua cultura para corresponder às expectativas dos cidadãos
das sociedades pós-industriais. Desse ponto de vista, a "valorização" do
outro, na realidade, contribui para a sua destruição identitária. Em
escala planetária, é a uniformização. As únicas diferenças que restam
são estéticas, permitem viajar e viver a aventura para progredir
interiormente e encontrar a si mesmos.
Essa mudança lhe parece irreversível?Sim.
Há precisamente a formação de um fundo mítico comum a toda a
humanidade, que corresponde a uma situação política, econômica, em que
todos já tomaram consciência da condição dos outros. Portanto, não é
possível voltar atrás. Quais serão as consequências dessa revolução em
algumas décadas? Poderão ser positivas ou negativas. Pode-se até
imaginar um integralismo indivíduo-globalista: seitas de loucos poderiam
querer destruir a humanidade ou instaurar uma ditadura anti-humanista
por causa das devastações causadas pelos seres humanos ao meio ambiente.
É possível. Assim como é possível um mundo em que a realização pessoal
se tornará a norma dominante. O roteiro ainda está para ser escrito.