Os pecadores não são mais aqueles que
se perdem, mas aqueles que se deixam perder e não querem se alegrar com
aqueles que são encontrados. Uma reflexão em cima do Evangelho segundo
Lucas 15: 1-32.

A parábola da ovelha perdida: somos salvos não porque somos perfeitos; somos salvos por gratuidade.
Por Raymond Gravel
Nós continuamos no caminho para Jerusalém, e nas próximas três semanas o
Jesus do Evangelho de Lucas faz os seus discípulos compreenderem o tipo
de Igreja que ele quer: uma Igreja acolhedora dos pecadores, uma Igreja
que sabe investir em valores duradouros e uma Igreja que deve se
lembrar de que não pode estar do lado de Deus se se esquece dos pobres,
dos abandonados e dos desgarrados da vida. É, portanto, a uma verdadeira
revolução que Cristo nos convida hoje: se Deus vem para os pecadores
não é para matá-los ou condená-los à exclusão, mas para tomá-los nos
braços e levá-los até sua casa, lá onde os anjos se alegram com sua
conversão. Jesus nos revelou, portanto, um Deus que nos oferece todas as
chances, um Deus cheio de Amor e de misericórdia.
Lucas é, com frequência, chamado de evangelista da misericórdia. Ser
misericordioso é abrir seu coração à miséria do outro, dos outros, para
detê-la, aliviá-la e transformá-la. Todo o capítulo 15 de Lucas é um
ensinamento sobre a misericórdia. Três parábolas se sucedem e seu
encadeamento é, sem dúvida, obra de Lucas, que ensina a sua comunidade
no final do século I. Semelhantes em muitos aspectos, essas parábolas
também têm acentos diferentes. Além disso, as três se dirigem ao mesmo
público: aos fariseus e aos escribas, isto é, aos hipócritas que se
achavam perfeitos; àqueles que não compreendem que o Cristo do Evangelho
possa dar lugares aos publicanos e aos pecadores, isto é, àqueles e
àquelas que não valem nada, porque são incrédulos, ladrões, adúlteros,
bêbados, prostitutas, homossexuais, etc. Essas três parábolas não são
moralizantes; elas querem simplesmente mostrar a gratuidade do perdão, o
benefício da misericórdia, a ternura de Deus, seu Amor incondicional e
sua alegria quando a esperança é completa.
A parábola da ovelha perdida e reencontrada (Lc 15,3-7)
Nesta parábola em que o pastor tem 100 ovelhas, como pode abandonar as
99 para procurar aquela que se perdeu? Transposto para o contexto da
época de Jesus, os justos e os conformados são as 99 ovelhas que Jesus
abandona para procurar a excluída, a ovelha que dizemos perdida. Isso
significa que esta ovelha tem sua importância; ela vale as 99 outras. No
fundo, a mensagem desta parábola evangélica quer dizer que nós somos
salvos não porque somos perfeitos; somos salvos por gratuidade, porque
nos deixamos converter por Jesus, e é isso que nos dá a alegria pascal:
“Eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador
que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de
conversão” (Lc 15,7). O que fez o exegeta francês Jean Debruynne dizer:
“Nós não entramos no céu porque somos certinhos. Ser justo não dá nenhum
direito, senão o direito de se converter. Justo ou não, nós nunca
acabaremos de nos converter ao Amor, que será sempre gratuidade de
Deus”.
Parábola da moeda perdida e reencontrada (Lc 15,8-10)
Esta parábola contém um sentido idêntico à primeira. Mas, como se trata
de uma moeda, podemos ver nisso todo o valor da moeda perdida; ela vale
tanto quanto as outras nove. Transposto para a época de Jesus, a
prostituta ou o excluído valem tanto quanto o justo e o perfeito.
A parábola do pai e dos dois filhos (Lc 15,11-32)
Esta parábola contém duas sequências: a primeira descreve a atitude do
pai para com o filho mais novo (Lc 15,11-24) e a segunda fala de seu
comportamento diante do filho mais velho (Lc 15,25-32). Cada um dos
filhos tem uma imagem falsa do pai. O mais jovem pensa que após os erros
que cometeu seu pai não o reconheceria mais como seu filho e que deve
se contentar com o fato de seu pai aceitá-lo com servo. O mais velho
sempre se comportou como um servo e não como um filho. Ele mesmo declara
ao seu pai: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a
qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com
meus amigos” (Lc 15,29). Claramente, no plano da relação com seu pai, os
dois filhos tinham a mesma importância. Na época de Jesus, o mais jovem
representa o desgarrado da vida; o mais velho, o justo e o perfeito.
Ao contrário das duas parábolas precedentes, o pai não busca, em
primeiro lugar, encontrar os seus filhos, ambos perdidos. Ele respeita
as suas liberdades. Por outro lado, ele os espera, e quando o mais jovem
retorna para ele, o pai corre ao seu encontro para acolhê-lo
incondicionalmente, de tal maneira que quando o filho mais novo chega
diante de seu pai e lhe quer reconhecer sua falta – “Pai, pequei contra o
céu e contra ti. Já não mereço que me chamem teu filho” (Lc 15,21) –, o
pai não o deixa nem mesmo terminar de falar. Seu perdão é tão grande e
gratuito que o simples retorno do filho mais novo lhe restitui sua
dignidade de filho e o faz entrar na alegria da festa: “Mas o pai disse
aos empregados: ‘Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho.
E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Peguem o novilho
gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava
morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’. E começaram a
festa” (Lc 15,22-24).
Mas há uma grande diferença em relação ao mais velho, o perfeito, o
justo. Ao seu retorno dos campos, onde trabalhava como um servo, ele se
recusa a entrar e participar da festa, mesmo que o seu pai lhe suplique.
Ele se recusa a se converter: “Então o irmão ficou com raiva, e não
queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Mas ele respondeu ao
pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer
ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos.
Quando chegou este teu filho, que devorou teus bens com prostitutas,
matas para ele o novilho gordo!’” (Lc 15,28-30). O exegeta Alain
Marchadour escreve: “Quando o pai se alegra com o retorno daquele que
estava perdido, arrisca-se a perder o filho mais velho”. E é isso que
acontece. Marchadour continua: “O filho mais velho perdeu algo que nunca
encontrará, aquilo que foi dado ao seu irmão. Ele precisa, por sua vez,
fazer a experiência da verdadeira paternidade, ele que diante do seu
pai comporta-se como um empregado”.
No caso do filho mais velho, o pai não pode fazer nada; o filho mais
velho não pode ser restabelecido como filho, e pior ainda, ele perde o
seu irmão: “Quando chegou este teu filho, que devorou teus bens com
prostitutas, matas para ele o novilho gordo!” (Lc 15,30). Por outro
lado, como a misericórdia de Deus é sem limites, a porta do perdão
permanece aberta: “Então o pai lhe disse: ‘Filho, você está sempre
comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas, era preciso festejar e nos
alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava
perdido, e foi encontrado’” (Lc 15,31-32). Felizmente, a parábola
termina aí... Ela deixa a possibilidade que a história possa continuar e
que o irmão mais velho encontre também a sua dignidade de filho e entre
para a alegria da festa.
Concluindo, que bela mensagem de perdão, de amor e de esperança para
nós, hoje, que devemos nos situar em relação aos diferentes personagens
ou atores dessas parábolas de Lucas. O francês Patrick Jacquemont resume
o evangelho dizendo: “Cem ovelhas, dez moedas, dois filhos. A
insistência vai se afunilando, mas o refrão permanece o mesmo: perdido e
encontrado. É do amor de Deus, pastor, senhor da casa, pai de família,
que Jesus quer falar àqueles que o cercam e que Lucas quer fazer ecoar
às primeiras comunidades cristãs. Para os judeus é vital dizer que
ninguém é excluído do Reino. Se uma ovelha se perde é prioritário deixar
as outras, os fariseus, para encontrá-la. Para os novos convertidos, é
importante compreender que se falta uma moeda, é urgente encontrá-la
porque cada uma é preciosa e as nove outras não consolam tanto quanto a
perdida. Para todos, é bom lembrar que se um filho quis partir para
viver sua vida, não é possível esquecê-lo em detrimento do outro que
fica. Todos e todas têm, sempre e em cada situação, o mesmo preço,
único, aos olhos de Deus. Se julgamos este ou aquele perdido, é porque o
nosso amor não é muito apaixonado, perspicaz e paciente para
encontrá-lo. Trata-se de uma verdadeira mudança, de uma radical
conversão a fazer. Os pecadores não são mais aqueles que se perdem, mas
aqueles que se deixam perder e não querem se alegrar com aqueles que são
encontrados. O amor de Deus, que sabe encontrar aqueles que se
perderam, deve agora encontrar o coração daqueles que não se acham
perdidos. Para encontrarem o Reino”.
Réflexions de Raymond Gravel