terça-feira, 12 de novembro de 2013

Santíssima Trindade, a maior força do mundo


No mais íntimo dos fatos, religião e mundo moderno não andam muito distantes entre si.

A ideia do Deus uni-trino se impõe de tal forma que a humanidade entra no esquema, mesmo sem perceber.
Por Dom Aloísio Roque Oppermann

Foi um grande equívoco de Kant – de resto grande filósofo – o menosprezo que demonstrou para com o mistério da Trindade. Ele chegou a confidenciar que, para ele, a Trindade ter três pessoas ou dez é a mesma coisa. Ao contrário, uma das pessoas mais inteligentes da História, Santo Agostinho, ensinou que não existe estudo mais frutuoso do que o dos Divinos Três. É um ensinamento que pode dar a aparência de ingenuidade, mas de fato é um pensamento motriz. E nem existe idéia capaz de superá-lo em consequências, mesmo políticas.

Hoje quero lembrar os amigos, da influência decisiva que as Divinas Pessoas exercem sobre o mundo dos homens, mesmo de modo inconsciente. No mais íntimo dos fatos, religião e mundo moderno não andam muito distantes entre si. A ideia do Deus uni-trino se impõe de tal forma que a humanidade entra no esquema, mesmo sem o perceber. “Até os inimigos vos bajulam pelos vossos grandes feitos”. Todas as grandes idéias estão encerradas dentro desse mistério.

O Pai Criador é reconhecido pelos esforços da humanidade em defender a Ecologia. Proteger os animais e as plantas, bem como todas as riquezas da natureza, é sentir-se encarregado pelo Pai Celeste de usar de tudo, mas também cuidar em conservar com zelo. O esforço sem fim pelas descobertas, que espicaçam a curiosidade humana, é ir ao encalço do Criador e saber como Ele fez todas as coisas. O esforço a ser feito é ciclópico. Só descobrimos, até agora, 5% de toda a natureza.

O Filho Salvador é reconhecido no esforço perpétuo de reconhecer a dignidade da pessoa humana, a igualdade de todos perante Deus, seja por motivos de raça ou de sexo. Mas também a busca da superação das doenças é reconhecer como Jesus curava os males de todas as pessoas. Até os partidos políticos e as grandes revoluções da História seguem os princípios de Cristo quando demonstrou preferência pelos mais fracos.

O Espírito da Vida é reconhecido indiretamente, na eterna busca da paz, que a humanidade se esforça por alcançar. Também quando se faz esforços pelo Ecumenismo, pela boa convivência entre os povos, pela busca psicológica do sentido da vida. Tudo isso nasce da atribuição do Paráclito de ser o Deus que dá o sentido derradeiro da vida. “Vós me ensinais vosso caminho para a vida” (Sl 16, 11).
CNBB, 28-10-2013
*Dom Aloísio Roque Oppermann é arcebispo emérito de Uberaba.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Evangelho do dia

Ano C - 12 de novembro de 2013

Lucas 17,7-10

Aleluia, aleluia, aleluia.
Quem me ama, realmente, guardará minha palavra, e meu Pai o amará e a ele nós viremos (Jo 14,23). 


Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
Naquele tempo, disse Jesus: 17 7 "Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: ‘Vem depressa sentar-te à mesa?’
8 E não lhe dirá ao contrário: ‘Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo, e depois disto comerás e beberás tu?’
9 E se o servo tiver feito tudo o que lhe ordenara, porventura fica-lhe o senhor devendo alguma obrigação?
10 Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer’".
Palavra da Salvação.

Comentário do Evangelho
O CUMPRIMENTO DO DEVER
O discípulo é constituído para o serviço do Reino. É na vocação de servidor que se realiza e encontra um sentido para sua vida. Sua alegria consiste em entregar-se, sem reservas, à missão recebida, sem nada exigir. Basta-lhe a consciência do dever cumprido.
Jesus desenvolveu este tema, servindo-se de uma parábola baseada nos costumes da época. A inescrupulosa atitude do senhor, em relação a seu servo, justificava-se na sociedade de então. A falta de um contrato de trabalho, em que se estipulava o limite de horas de trabalho diário e se reconhecia as horas extras, possibilitava aos senhores explorar, ao máximo, os seus empregados. Por outro lado, o escravo era propriedade de seu dono, portanto, sem qualquer direito. Tudo quanto fizesse, por mais duro e esgotante que fosse, restava-lhe somente dizer: "Cumpri apenas meu dever!"
Aplicado ao Reino, a lição funciona assim: se o escravo, serve por obrigação, submete-se a todos os caprichos de seu patrão, resigna-se ao pensar que faz o seu dever, quanto mais o discípulo do Reino, cuja opção é livre, está a serviço de um Pai misericordioso, e tem como obrigação somente praticar o amor e a justiça? Por mais que tenha feito, cabe-lhe dizer: "Sou um empregado inútil, fiz apenas o que era minha obrigação!" É se dá por satisfeito por estar a serviço do amor.

OraçãoEspírito que estimula a cumprir o dever, que o serviço ao Reino, embora duro e exigente, seja para mim motivo de alegria e realização.

(O comentário do Evangelho é feito pelo Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica, Professor da FAJE – e disponibilizado neste Portal a cada mês)
Leitura
Sabedoria 2,23-3,9
Leitura do Livro da Sabedoria.
2 23 Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza.
24 É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo, e os que pertencem ao demônio prová-la-ão.
3 1 Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará.
2 Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça.
3 E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz!
4 Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade,
5 e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de si.
6 Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto.
7 No dia de sua visita, eles se reanimarão, e correrão como centelhas na palha.
8 Eles julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre.
9 Os que põem sua confiança nele compreenderão a verdade, e os que são fiéis habitarão com ele no amor: porque seus eleitos são dignos de favor e misericórdia.
Palavra do Senhor.
Salmo 33/34
Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo!

Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,
seu louvor estará sempre em minha boca.
Minha alma se gloria no Senhor;
que ouçam os humildes e se alegrem!

O Senhor pousa seus olhos sobre os justos,
e seu ouvido está atento ao seu chamado;
mas ele volta a sua face contra os maus,
para da terra apagar sua lembrança.

Clamam os justos, e o Senhor bondoso escuta
e de toda as angústias os liberta.
Do coração atribulado ele está perto
e conforta os de espírito abatido.
Oração
Suscitai, ó Deus, na vossa Igreja o Espírito que impeliu o bispo são Josafá a dar a vida por suas ovelhas e concedei que, por sua intercessão, fortificados pelo mesmo Espírito, estejamos prontos a dar a nossa vida pelos nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Pecadores somos todos, corruptos não – o Papa na missa desta segunda-feira denunciou quem é benfeitor da Igreja mas rouba o Estado

Na missa desta manhã na Casa de Santa Marta o Papa Francisco denunciou os corruptos, dizendo que pecadores somos todos mas corruptos não. Partindo da passagem do Evangelho em que Jesus nos pede para perdoarmos sete vezes por dia, o Santo Padre recordou que o próprio Cristo considerava muito mau o comportamento dos que são motivo de escândalo. “Pecado é uma coisa mas o escândalo é outra”.

“A diferença é que quem peca e se arrepende, pede perdão, sente-se débil, sente-se filho de Deus, humilha-se e pede a salvação a Jesus. Mas daquele que escandaliza, o que é que escandaliza? Quem não se arrepende. Continua a pecar, mas faz de conta de ser cristão: é a vida dupla. E a vida dupla de um cristão faz tão mal, tão mal. Mas eu sou benfeitor da Igreja! Meto a mão no bolso e dou à Igreja. Mas com a outra rouba: ao Estado, aos pobres... rouba. É um injusto. Isto é vida dupla.”
“E nós devemos assumir-nos como pecadores, sim, todos, somos todos. Mas corruptos não. O corrupto está fixo num estado de suficiência, não sabe o que é a humildade. Jesus a estes corruptos dizia serem sepulcros esbranquiçados, que parecem belos exteriormente mas dentro estão cheios de ossos, morte e podridão. Cristãos corruptos e padres corruptos...quanto mal fazem à Igreja. Porque não vivem no espírito do Evangelho, mas no espírito da mundanidade.”

S. Paulo - comentou o Papa Francisco – diz claramente na Carta aos cristãos de Roma: “Não vos conformeis com este mundo”, e o próprio texto - continua o Santo Padre até vai mais longe pois S.Paulo propõe que não entremos nos parâmetros deste mundo, na mundanidade que nos leva à vida dupla:

“Uma podridão envernizada: esta é a vida do corruptos. Peçamos hoje a graça ao Espírito Santo que foge a todo o engano, peçamos a graça de reconhcermo-nos pecadores: somos pecadores. Pecadores sim, Corruptos não.” (RS)

Igreja promove uma verdadeira consulta católica


O mais notável sobre a consulta promovida pela Igreja é sua implicação de que as coisas têm que mudar.


Papa e o Conselho de Cardeais: como a Igreja pode começar a evangelizar as pessoas e parar de condená-las? (Foto: )
É importante que o maior número de católicos possível, de todos os matizes de opinião, participem do questionário vaticano, e não apenas aqueles que podem desemaranhar questões complicadas sobre o papel da lei natural na vida familiar.

O mais notável sobre a consulta referente ao sexo, ao casamento e à vida familiar, em que a Igreja Católica pediu que os católicos do mundo inteiro participem, é a sua brava implicação de que as coisas têm que mudar. Uma frase no documento oficial que acompanha o questionário do Vaticano é um exemplo disso. Como resultado da situação atual, ele afirma: "Muitos adolescentes e jovens (…) poderão nunca ver os seus pais aproximar-se dos sacramentos", à luz do que "compreendemos como são urgentes os desafios apresentados à evangelização pela situação atual".

Sem dúvida, essa é uma referência à atual política da Igreja sobre os católicos que se divorciam e se casam de novo e que depois são informados de que não podem receber a Sagrada Comunhão, porque ele então diz: "Esta realidade encontra uma correspondência singular no vasto acolhimento que tem, nos nossos dias, o ensinamento sobre a misericórdia divina". Em suma, como a Igreja pode começar a evangelizar essas pessoas – e os seus filhos – e parar de condená-las?

Essa consulta única está ocorrendo como parte dos preparativos para o Sínodo Extraordinário dos Bispos que o papa Francisco convocou para outubro próximo. Há uma crescente energia por trás desse argumento. O bispo de Portsmouth, Philip Egan, escreveu em uma recente carta pastoral que ele espera que o Sínodo encontre "alguma forma" de oferecer misericórdia, ajuda e reconciliação a católicos em uniões irregulares ou que estão divorciados e recasados – e ele é um dos bispos mais conservadores da Inglaterra. Esse já se tornou um campo de batalha chave deste papado, em que o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Gerhard Müller, negou que a misericórdia tenha algo a ver com isso, levando-o, assim, a um confronto com membros-chave da hierarquia alemã.
O fato de que os católicos comuns podem contribuir oficialmente com esse debate tomando parte da consulta não tem precedentes. O fato de se recusar a atender o que os católicos leigos comuns têm a dizer sobre questões como o divórcio e a contracepção não será mais um marco definidor da Igreja, razão pela qual essa consulta equivale a admitir que essa não será mais uma forma sustentável para dirigir a Igreja.
Mas o processo de substituição de uma mentalidade por outra vai levar tempo para se ajustar, assim como a formulação do questionário ocasionalmente transmite. Os autores das perguntas parecem divididos entre aceitar que o ensino, digamos, da Humanae vitae sobre o controle de natalidade foi rejeitado por um grande número de católicos casados, e perguntar como esse ensino pode ser ensinado de forma mais efetiva. Uma pergunta inesperada – "Como favorecer o aumento dos nascimentos?" – convida a uma resposta educada – "Por que deveria?". A Igreja possivelmente não pode saber que tamanho da população é o caminho certo.
Por isso, o questionário é uma mistura de coisas. Mas é importante que o maior número de católicos possível, de todos os matizes de opinião, participem, e não apenas aqueles que podem desemaranhar questões complicadas sobre o papel da lei natural na vida familiar. Os católicos praticantes são mais propensos a ouvir e a querer participar da consulta, mas é importante que eles também reflitam sobre os pontos de vista da comunidade católica mais ampla, que inclui muitos que se sentem excluídos da Igreja. De fato, a clara intenção do Papa Francisco é encontrar formas para que esse sentimento de exclusão possa ser revertido. Essa é uma iniciativa pastoral reconfortante.

Não é menos importante que as autoridades da Igreja responsáveis por cotejar os resultados da consulta devam levar em conta evidências como a produzida pela professora Linda Woodhead, resumida na The Tablet, que mostra o quanto a prática católica se distanciou da teoria católica. A Igreja provocou um grande dano a si mesma no passado, ao ouvir apenas aquelas pessoas leigas com opiniões "aceitáveis". Mas essa consulta marca o fim da familiar suposição de que aqueles que não assinam embaixo do pacote católico sobre sexo e casamento inteiro não são a realidade e, portanto, podem ser descontados.

A antiga abordagem ignorou o conselho do cardeal Newman, que escreveu em seu ensaio "Sobre a consulta aos fiéis em matéria de doutrina": "A tradição dos Apóstolos (...) manifesta-se de várias formas em vários momentos. Às vezes, pela boca do episcopado, às vezes pelos doutores, às vezes pelas pessoas, às vezes pelas liturgias, ritos, cerimônias e costumes, pelos eventos, disputas, movimentos (...) Segue-se que nenhum desses canais da tradição podem ser tratados com desrespeito". O papa Francisco, ao autorizar essa consulta, está respeitando todos eles, o que é algo muito católico, embora muito incomum, para um papa moderno.
Instituto Humanitas Unisinos, 11-11-2013.

Para reflexão: 'Nós ouvimos aquilo que amamos'

Por Padre Queiroz


Certa vez, dois rapazes, um índio e um branco, estavam passeando numa cidade grande. Era de tardezinha, depois de uma chuva, e eles estavam numa avenida central, com jardim no meio. O movimento, tanto de veículos como de pessoas que voltavam do trabalho, era enorme.

De repente, o índio falou: “Eu estou ouvindo um grilo cantar”. "Impossível!", disse o branco. “Como que, neste barulho todo, você vai ouvir o canto de um grilo?”Mas o índio insistiu que ouvia.

Para provar, depois que o farol fechou, ele levou o amigo até o canteiro central da avenida, afastou as folhas e apontou para o animalzinho. Continuaram andando na calçada, no meio da multidão. Disfarçadamente, o índio deixou cair no chão umas moedas que tinha no bolso. Várias pessoas ouviram o barulhinho delas e olharam na direção.
"Está vendo?", disse o índio. “Eu escutei o grilo porque estou acostumado com o seu canto. Essas pessoas escutaram as moedas caírem, porque estão acostumadas com o barulho de moedas. Nós ouvimos aquilo que amamos".

“Ninguém pode servir a dois senhores, pois vai odiar a um e amar o outro... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13).
A12, 06-11-2013.

A comunicação de Francisco e a 'cultura do encontro'

Por Moisés Sbardelotto* 


Desde a sua eleição, o papa Francisco tem sido um exemplo da íntima ligação entre palavra e gesto, discurso e ação, anúncio e testemunho, reflexão e prática – em suma, um exemplo da autêntica práxis. Assim foi logo na sua apresentação ao mundo como papa, quando convidou a um caminho de "fraternidade, de amor, de confiança" juntos, "bispo e povo", e subverteu a histórica bênção Urbi et Orbi, primeiro inclinando-se diante do povo para pedir a sua oração.
Dessa forma, Francisco reconhece esse "outro" multitudinário que está à sua frente, pessoas diferentes dele mesmo, que também têm algo a oferecer, que demandam uma atitude de escuta, abertura e acolhida. E, ao encerrar a noite, Francisco disse um simples e natural "Boa noite e bom descanso!", estabelecendo um diálogo direto e humano entre pessoas que compartilham os mesmos desejos e necessidades, como dormir e descansar.

Com gestos e palavras como esses, em menos de um ano de pontificado, Francisco foi revolucionando a comunicação dentro e fora da Igreja. Uma síntese da sua práxis comunicacional pode ser encontrada no tema proposto por ele para a sua primeira mensagem ao Dia Mundial das Comunicações Sociais, a ser celebrado em 2014: "Comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro". A ideia da "cultura do encontro" foi abordada pelo papa principalmente em duas ocasiões, em contraponto à “cultura da exclusão”, do "descartável", da "globalização da indiferença".

Na missa com o clero e os religiosos presentes na Jornada Mundial da Juventude, no dia 27 de julho, Francisco afirmou: "O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade (...) e a fraternidade são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro”. E, na sua primeira Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o papa defendeu a cultura do encontro como “a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor”.

Tendo em vista o serviço a essa cultura, qual o papel da comunicação? E, a partir do exemplo do papa, quais são as dinâmicas e as lógicas comunicacionais que colaboram com a construção dessa cultura? Retomar seus inúmeros e surpreendentes gestos e palavras renderia uma biblioteca inteira. Aqui, quero me deter sobre quatro momentos-chave que explicitam intuições de Francisco para o agir comunicacional de toda a Igreja, encarnadas no diálogo com todos.

O primeiro deles foi o encontro com os representantes dos meios de comunicação após o conclave, no dia 16 de março. O costume dizia que, ao fim da audiência, o papa deveria conceder a sua bênção aos presentes traçando o Sinal da Cruz. Mas Francisco surpreendeu ao dizer: “Como muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica e outros não são crentes, de coração eu dou a bênção em silêncio, a cada um de vocês, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus. Que Deus os abençoe!” – e simplesmente levantou a mão direita para se despedir. Assim, somando gesto e ação, Francisco reiterou a necessidade, para uma comunicação realmente humana, de reconhecer a existência de um “outro”, que é totalmente diferente de nós, que não compartilha necessariamente tudo o que somos e pensamos, mas que merece o mesmo respeito de “filho de Deus”.

E a ação evangelizadora da Igreja deve começar justamente a partir do reconhecimento dessa alteridade. Missão, no rastro de Francisco de Assis, é “encontrar, ouvir, dialogar, ajudar, espalhar fé e amor. Sobretudo amor”, disse o pontífice em uma entrevista concedida ao jornal italiano La Repubblica, no dia 1º de outubro. Por isso, “o proselitismo é uma solene bobagem (sciochezza). Não tem sentido”, exclamou. “É preciso se conhecer – continuou Francisco –, se ouvir e fazer crescer o conhecimento do mundo que nos circunda”. Na missa desse mesmo dia, Francisco reafirmou essa ideia: “A Igreja, dizia-nos Bento XVI, não cresce por proselitismo, cresce por atração, por testemunho”.

Um segundo momento foi a carta aberta endereçada ao diretor-fundador do La Repubblica, o jornalista Eugenio Scalfari, personalidade proeminente da intelligentzia italiana e ateu assumido. Em 2013, Scalfari escreveu dois artigos dirigidos pessoalmente a Francisco, questionando alguns ensinamentos e posicionamentos da Igreja. Em um gesto histórico, o papa respondeu ao jornalista com uma carta publicada no próprio jornal. Nela, retomando o Concílio Vaticano II, Francisco afirmou que “chegou agora o tempo (…) de um diálogo aberto e sem preconceitos que reabra as portas para um sério e fecundo encontro” entre a Igreja e a cultura contemporânea. Para poder estabelecer tal diálogo, segundo o papa, é preciso reconhecer a verdade não a partir de sua dualidade absoluta/relativa, mas sim como relacional: para a fé cristã, a verdade é “o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação!”, afirmou.

Só a partir desse reconhecimento é possível estabelecer um “diálogo sereno e construtivo” com a cultura, sem aprioris que o engessem e o transformem em monólogo. Assim, a alteridade, a diversidade e as verdades do outro ajudam a descobrir a identidade, a unidade e a verdade do nosso próprio ser. Na conclusão, o papa convida o jornalista a acolher as suas reflexões “como a resposta tentativa e provisória, mas sincera e confiante, ao convite de fazer um trecho de estrada juntos”. E assim é toda comunicação: tentativa e provisória, visto que não controlamos nem o nosso próprio discurso – que sempre é posto em circulação em um caldo cultural que nos inclui, mas nos supera –, nem o nosso interlocutor – que sempre é um “outro” por excelência, que age de forma ativa, produtiva e criativa, jamais passiva, ao que lhe oferecemos.

Um terceiro momento foi a sua longa entrevista concedida às principais revistas jesuítas do mundo, publicada no dia 19 de setembro. Nela, Francisco reconhece que “o homem, com o tempo, muda o modo de perceber a si mesmo”, e assim “também as formas de expressão da verdade podem ser multiformes, e isto é necessário para a transmissão da mensagem evangélica no seu significado imutável”. É necessária, portanto, uma comunicação que saiba atualizar e diversificar seus meios e mediações diante de cada novo contexto e situação. Por isso, afirmou, em termos eclesiais, “a primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar”. E esse diálogo deve ser estabelecido “com todos, mesmo com os mais distantes e os adversários”.

Um quarto momento que gostaria de destacar foi o discurso do papa na Plenária do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (PCCS), no dia 21 de setembro. Diante dos principais responsáveis pela comunicação da Igreja Católica mundial, Francisco reiterou a comunicação não como um “setor” da Igreja, mas sim como uma “dimensão existencial”. Nesse sentido, é preciso uma Igreja que saiba “dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo”. E esse desafio não é de ordem tecnológica: “O problema fundamental não é a aquisição de tecnologias sofisticadas, embora necessárias para uma presença atual e válida” da Igreja na cultura atual.

“No contexto da comunicação – afirma Francisco –, é preciso uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração”. Pois “a Igreja é mãe”, como disse o papa ao jornalista brasileiro Gerson Camarotti. “Nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe dá carinho, toca, beija, ama”. Assim deve ser a Igreja, e a sua práxis comunicacional deve se encarnar na realidade, na ação e na relação com o outro, pois “comunicação pela metade não faz bem”. A questão é sermos e reconhermo-nos como coartífices de uma comunicação em que o verdadeiro Artífice, como disse Francisco à Plenária do PCCS, é “o Deus em quem acreditamos, um Deus apaixonado pelo homem”, que “quer se manifestar através dos nossos meios, ainda que pobres, porque é Ele que opera, é Ele que transforma, é Ele que salva a vida do homem”.

O “Magistério comunicacional” de Francisco – centrado no diálogo com todos e encarnado em seus sorrisos, abraços, telefonemas, cartas, entrevistas – nos desafia e nos serve de bússola para encontrar os caminhos, em cada contexto específico, que levem à construção de uma autêntica “cultura do encontro”.
O Mensageiro de Santo Antônio, 11-2013.
*Moisés Sbardelotto é jornalista, doutorando em Ciências das Comunicação pela Unisinos e autor do livro "E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet".

Evangelho do dia

Ano C - 11 de novembro de 2013

Lucas 17,1-6

Aleluia, aleluia, aleluia.
Como astros no mundo brilheis, pregando a palavra da vida! (Fl 2,15s) 


Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
17 1 Jesus disse também a seus discípulos: "É impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm!
2 Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. Tomai cuidado de vós mesmos.
3 Se teu irmão pecar, repreende-o; se se arrepender, perdoa-lhe.
4 Se pecar sete vezes no dia contra ti e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: Estou arrependido, perdoar-lhe-ás".
5 Os apóstolos disseram ao Senhor: "Aumenta-nos a fé!"
6 Disse o Senhor: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: ‘Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá’".
Palavra da Salvação.

Comentário do Evangelho
RECONCILIAÇÃO E PERDÃO
A comunidade cristã não é feita de pessoas santas ou incapazes de pecar. Pelo contrário, comporta, entre seus membros, gente afetada pelo egoísmo e sempre disposta a romper os laços fraternos, que mantém a unidade entre os cristãos. Uma comunidade esfacelada é o pior contratestemunho do Reino que possa existir. É uma declaração tácita de que o amor é impraticável, e a força do egoísmo, inexorável.
Daí a exigência de o cristão se predispor, continuamente, a refazer os laços rompidos. Capitular seria um gesto anticristão, incompatível com as exigências do Reino.
A reconstrução da comunidade cindida pela inimizade processa-se num duplo movimento: o reconhecimento do pecado, por parte de quem ofende o irmão, e a oferta de perdão, por parte de quem foi ofendido. É uma questão de boa vontade e de se deixar mover pela graça.
Quem peca, deve ter consciência de suas faltas e das conseqüências negativas para a comunidade. O passo seguinte consiste em ser capaz de declarar-se arrependido e pedir perdão. É preciso ter a humildade de refazer este mesmo caminho, quantas vezes forem necessárias.
Quem foi vítima da ofensa alheia, deve estar sempre pronto a perdoar, sem conservar ressentimento ou rancor no coração. Reconhecendo que o pecado resulta da fraqueza humana, terá para com o pecador arrependido a mesma paciência de Deus.

OraçãoEspírito de reconciliação, mantenha meu coração aberto tanto para pedir perdão, quanto para oferecê-lo a quem tiver ofendido.

(O comentário do Evangelho é feito pelo Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica, Professor da FAJE – e disponibilizado neste Portal a cada mês)
Leitura
Sabedoria 1,1-7
Leitura do livro da Sabedoria.
1 1 Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-o na simplicidade do coração,
2 porque ele é encontrado pelos que o não tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança;
3 com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos.
4 A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado;
5 o Espírito Santo educador (das almas) fugirá da perfídia, afastar-se-á dos pensamentos insensatos, e a iniqüidade que sobrevém o repelirá.
6 Sim, a Sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras.
7 Com efeito, o Espírito do Senhor enche o universo, e ele, que tem unidas todas as coisas, ouve toda voz.
Palavra do Senhor.
Salmo 138/139
Conduzi-me no caminho para a vida, ó Senhor!

Senhor, vós me sondais e conheceis,
sabeis quando me sento ou me levanto;
de longe penetrais meus pensamento,
percebeis quando me deito e quando eu ando,
os meus caminhos vos são todos conhecidos.

A palavra nem chegou à minha língua
e já, o Senhor, a conheceis inteiramente.
Por detrás e pela frente me envolveis;
pusestes sobre mim a vossa mão.
Esta verdade é por demais maravilhosa,
é tão sublime, que não posso compreendê-la.

Em que lugar me ocultarei de vosso espírito?
E para onde fugirei de vossa face?
Se eu subir até os céus, ali estais;
se eu descer até o abismo, estais presente.

Se a aurora me emprestar as suas asas,
para eu voar e habitar no fim dos mares,
mesmo lá vai me guiar a vossa mão
e segurar-me com firmeza a vossa destra.
Oração
Ó Deus, que fostes glorificado pela vida e morte do bispo são Martinho, renovai em nossos corações as maravilhas da vossa graça, de modo que nem a morte nem a vida nos possam separar do vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.