quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O presépio e a vitrine


O que não podemos esquecer é que o Natal é a celebração do nascimento do Filho de Deus.
Por Vinícius Paula Figueira*
Na última semana, ao palmilhar pelas calçadas da cidade e observando as vitrines das inúmeras lojas do comércio, senti certo desconforto: em meio aos manequins, acessórios, sapatos e tantos outros produtos que enchem os olhos dos transeuntes, visualizei discretos presépios.
Em alguns dos estabelecimentos eu parei para contemplar, digamos, o “conjunto”, mas era quase impossível compreender o mistério da tremenda simplicidade misturado (e ou perdido) no meio do sofisticado e superabundante “cardápio” de opções oferecidas ao público. Pior, qual estereótipo à medida que caminhava, o esquema se repetia. Brotavam-se tantas inquietações...
Sim, ao menos tive uma consolação: muitos comerciantes excluíram o velho barbudo do cenário. Pena que muitos não compreendem a espiritualidade que emana do presépio, isto é, a exposição dos símbolos cristãos funcionam como uma espécie de isca. Entendemos que o presépio não pode ser compreendido como um conjunto de peças para enfeitar o Natal. O escritor Octávio Paz escreveu: “O presépio tem que nos impelir a querer voltar para lá (ao estábulo), para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo”.
Na verdade o que não podemos esquecer é que o Natal é a celebração do nascimento do Filho de Deus na História. As celebrações trazem à memória, ou seja, tornam presente e atualiza o mistério celebrado. Rubem Alves pontua: “No passado, os presépios evidenciavam estrelas no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranquilidade”. Não tínhamos tantos acessórios ricos, eletrodomésticos, roupas de marca e outros penduricalhos. Logo, precisamos nos ater no essencial: a celebração deve se focar no fato celebrado. Do contrário, que sentido faz? Seria pura teatralidade”.
Todas as vezes que queremos adaptar o sagrado ao nosso jeito, pecamos. Mas acertamos todas as vezes que adaptamos o nosso jeito ao sagrado. Via de regra, nós vivemos de excessos; o sagrado vive do essencial. É verdade, enfeitar as vitrines como também as nossas casas faz parte da celebração. Evoca-O. Natal também é tempo que muita gente troca presentes, mas o mais importante é ser presença. Precisamos nos conscientizar que o fato celebrado não se confunde com suas representações. Presépio não combina com ouro, muito menos com comércio, afinal, o Menino que nele nasce, foi envolvido com paninhos numa estrebaria, não com roupas finas e outros adereços.
Natal só combina com uma coisa: Alegria. Há quem se alvoroce com faustas ceias, festas, farras, bebidas e outras atrações. Poucas pessoas param pra refletir, por exemplo: qual foi a ceia de Maria, José e o Menino naquela noite fria de Belém? Certamente um pão seco com água. Que sentido faz celebrar o nascimento do Menino no contexto da cultura do consumo e das aparências? É Natal, é melhor reunir-se em e com a família, e se alimentar do silêncio contemplativo daquela criancinha que amansa o universo, do que empanturrar o ego com tantas lambanças e comilanças. Que tal inventar e/ou investirmos num Natal mais evangélico e cristão, como por exemplo, fazer campanhas para minorar a fome de alguma família, reconciliar-se com alguém cujas relações não fluem; sorrir mais, abraçar mais, rezar mais, amar mais...
Portanto, o presépio não combina com as amostras dos palpitantes produtos que enfeitiçam os sentidos expostos nas vitrines. A beleza e o luxo estampados nas vitrines não combinam com a simplicidade da família de Nazaré. Ou seja, o natal comercial apenas pega carona no maravilhoso evento de Salvação, mas não pode fixar-se nele. O presépio tende a nos ensinar a arte da partilha com os pobres que continuam a sofrer nas grutas e nos estábulos fabricados pela sociedade consumista e indiferente à sorte daqueles que são obrigados a contentarem-se com as migalhas que caem das mesas dos ricos. E olhe lá...
A12 03-12-2015.

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