"De onde tu és?", póthen eî sý? No
pretório de Jerusalém, o governador Pôncio Pilatos, "juiz romano
racionalista", que "já havia expressado o seu ceticismo" ("O que é a
verdade?") faz ao acusado a pergunta decisiva. Bento XVI começa A
infância de Jesus a partir daí, quase como se fizesse de Pilatos um
ícone da incredulidade contemporânea.
Joseph
Ratzinger começara em 2003 o seu Jesus de Nazaré como cumprimento de um
"longo caminho interior" e, ao mesmo tempo, impulsionado por uma
"urgência", escrevia ele na publicação do primeiro volume, em 2007: a
percepção de " uma situação dramática da fé". A ideia de que, com o
progresso das pesquisas "histórico-críticas", em si válidas, a figura de
Jesus havia se tornado "cada vez mais nebulosa", voltava no segundo
volume de 2011, juntamente com a necessidade de recompor o "rasgo" entre
o "Jesus histórico" e o "Cristo da fé".
E agora a obra acabou. O livro mais esperado foi publicado no dia 21
de novembro. Nove anos de trabalho resumindo o sentido de uma vida
inteira (a epígrafe é o Salmo 27: "É a tua face, Senhor, que eu busco.
Não me escondas a tua face") se completam com Die Kindheitsgeschichten, a
terceira parte sobre os "relatos da infância de Jesus".
Mas aquele que, no início, devia ser um "capítulo" tornou-se muito
mais do que a "pequena sala de entrada aos dois volumes anteriores"
sobre a qual o autor fala no prefácio. A pesquisa do "Jesus real"
torna-se convincente ao falar do período mais misterioso da sua vida,
apenas quatro capítulos e 180 versículos entre os Evangelhos de Mateus e
Lucas. E é na análise desses textos que Bento XVI realiza o sentido da
sua obra: porque as "narrações" da infância "não são mitos ulteriormente
desenvolvidos" ou "lendas piedosas", escreve ele, muito menos podem ser
adscritas ao gênero do "midrash hagádico", o antigo gênero literário
judeu que interpreta a escrita por parábolas.
Escreve o papa: "Aqui se conta uma história que explica a Escritura
e, por outro lado, o que a Escritura, em muitos lugares, quis dizer,
torna-se visível somente agora, por meio dessa nova história".
"Eu tenho confiança nos Evangelhos", explicava ele no primeiro
volume. E agora argumenta: "Quais são as fontes?". A resposta é,
aparentemente, surpreendente: a "fonte" fundamental é Maria. "Lucas, às
vezes, faz referência ao fato de que a própria Maria, a mãe de Jesus,
era uma das suas fontes", e o faz em particular quando se lê no
Evangelho que "sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração".
Bento XVI escreve: "Só ela poderia referir o evento da Anunciação,
que não tivera testemunhas humanas". Certamente, "a exegese moderna"
pode considerar "ingênuas" essas conexões, mas Ratzinger responde:" Por
que não deveria haver tal tradição, conservada e, ao mesmo tempo,
modelada no círculo mais restrito? (...) Por que Lucas deveria ter
inventado?". O próprio "aparecer tardio" das "tradições marianas" se
explica "na discrição da Mãe e dos círculos em torno dela", até a sua
morte.
Mateus também "nos conta a verdadeira história" que "foi meditada e
interpretada teologicamente", e não ao contrário. As narrações "provêm
da tradição familiar". Com Klaus Berger, o papa afirma que, "até prova
em contrário, é preciso supor que os evangelistas não pretendem enganar
os seus leitores, mas querem relatar fatos históricos" e considera:
"Contestar por pura suspeita a historicidade desse relato vai além de
toda imaginável competência dos historiadores".
Considerações que recorrem no livro. O massacre dos inocentes "não
tem nada de impossível". Disse-se que Jesus teria nascido em Nazaré,
enquanto Belém, cidade de Davi, seria um lugar teológico, mas "eu não
vejo como se possa citar fontes verdadeiras a uma teoria dessas". O
mesmo vale para o nascimento na gruta e as "tradições locais" ("na
região desde sempre se usam grutas como estrebaria").
A palavra "primogênito" referida a Jesus indica "uma qualidade
teológica" e "não se refere" a outros filhos. Quanto ao boi e ao
jumento, no Evangelho, "não se fala de animais", mas "a meditação guiada
pela fé" levou a uma passagem de Isaías, e "nenhuma representação do
presépio renunciará ao boi e ao jumento".
Mais delicada é a questão do parto virginal de Maria. "É um evento
histórico real ou uma lenda piedosa? É verdade o que dizemos no Credo?".
A resposta "sem reservas é: sim". E com o grande teólogo protestante
Karl Barth, ele diz que "há dois pontos nos quais a ação de Deus
intervém imediatamente no mundo material: o nascimento da Virgem e a
ressurreição do sepulcro". Dois pontos "são um escândalo para o espírito
moderno", escreve o papa: "A Deus é concedido agir na esfera
espiritual, mas não sobre a matéria. Isso perturba. Ali não é o seu
lugar". Mas esses pontos são "pedras de toque para a fé", é disto que se
trata: "Se Deus não tem poder também sobre a matéria, então Ele não é
Deus".
Além disso, "Jesus não nasceu e apareceu em público no impreciso ´uma
vez´ do mito. Ele pertence a um tempo exatamente datável e a um
ambiente geográfico exatamente indicado: o universal e o concreto se
tocam". E não só isso: o texto deve ser lido também para o que diz
agora, "diz respeito a mim?". Isso vale para o grito das mães depois do
massacre das crianças; "na nossa época, esse grito a Deus ainda
permanece".
Vale para a política; "o meu reino não é deste mundo", diz Jesus, e
Ratzinger considera: "Às vezes, no curso da história, os poderosos deste
mundo o atraem para si; mas precisamente então ele está em perigo: eles
querem relacionar o seu poder com o poder de Jesus, e justamente por
isso deformam o seu reino, o ameaçam".
Vale também para a relação com a ciência, confiada às páginas sobre
os Reis Magos, que marcam o "fim da astrologia" ("o Menino guia a
estrela") e, ao mesmo tempo, o alargamento da razão para o todo, a
"autossuperação da ciência". O papa não se isenta nem da pergunta sobre
se a estrela "realmente existiu". Ele cita a conjunção de Júpiter,
Saturno e Marte no ano 7 e 6 a.C., a data "verossímil" do nascimento de
Jesus (houve, como se sabe, um erro de cálculo da era cristã), tabelas
chinesas que, no ano 4 a.C., indicam uma "estrela luminosa".
Um livro escrito com a simplicidade que é a meta do espírito e ao
mesmo tempo "dois livros em um", dizia no dia 20 o presidente da RCS
Libri, Paolo Mieli: um texto denso, complexo, que fala a todos, porque
diz respeito a todos. O cardeal Gianfranco Ravasi citou as palavras de
Maria em um texto teatral: "Este Deus é o meu filho. Esta carne divina é
a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos, e esta forma da
sua boca é a forma da minha. Ele se parece comigo. É Deus e se parece
comigo!". Depois, sorriu: "O autor, ateu, é Jean-Paul Sartre".
A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 21-11-2012, reproduzida pelo IHU-Unisinos.